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sábado, 4 de maio de 2019
Bolsonaro “culpa” Venezuela por preço do que a impedem de vender
POR FERNANDO BRITO · 01/05/2019

A crise politica da Venezuela não vai afetar o preço mundial do petróleo, por uma simples razão: ela já afeta faz tempo.
A Venezuela exportava, antes, quase 2,5 milhões de barris por dia.
Vivia disso, o que representava 95% de suas exportações.
Depois dos embargos econômicos feitos pelos EUA, este volume havia baixado, em fevereiro último, para perto de 0,5 milhão, apenas, quase todo ele (80%) comprado pela Índia.
As empresas norte-americanas ou que fazem negócios nos EUA podem até comprar petróleo lá, mas os venezuelanos não podem receber por ele, porque os valores serão bloqueados.
Além de não vender, os venezuelanos estão impedidos de produzir, primeiro porque a capacidade de estocagem está esgotada, depois porque se ressentem da importação de diluentes à base de nafta que possibilitem escoar o petróleo local por oleodutos, porque são muito densos para fluir por eles.
Aí vem o senhor Jair Bolsonaro, hoje, dizer que os preços dos combustíveis aqui podem subir, com os problemas do país vizinho.
Podem, mas apenas se os demais produtores especularem com isso, pois o petróleo venezuelano está virtualmente fora do mercado faz tempo.
Mas, ainda que fosse acontecer, qual seria o papel do governo brasileiro senão o de batalhar pelo restabelecimento da produção e do comércio daquele óleo, até para aliviar os preços mundiais e evitar o impacto sobre os preços internos?
Como é isso, a diplomacia “com ideologia” jogando contra nossos próprios interesses?
A Venezuela, podem apostar, servirá como “bode expiatório” para a elevação dos preços internos, porque estes estão -segundo o louco critério de fixarem-se apenas pela paridade câmbio/preço internacional – ainda abaixo do que deveriam estar, segundo os que advogam esta irresponsabilidade.
“A culpa é do Maduro”, dirão, embora sejamos cúmplices integrais desta política de embargo comercial.
Cortar mais na educação é aula de ineficiência
POR FERNANDO BRITO · 02/05/2019

Reportagem do UOL, hoje, mostra que, de 2014 até hoje – e ainda sem contar os cortes anunciados pelo “Encarregado da Educação” (aproprio-me da ótima expressão usada ontem por Delfim Netto, na Folha) – os investimentos em educação decresceram na inacreditável marca de 56%.
As despesas totais do MEC, no mesmo período, caíram 11,7%.
É o retrato contábil do que se comentou ontem aqui: cortes orçamentários são, em geral, um incremento da perda de eficiência de qualquer instituição e muito especialmente as de ensino.
Vejam, segundo os números produzidos pela assessoria técnica da Câmara e publicados na reportagem.
Em 2014, cada real investido em educação (R$ 11,3 bi) representava R$ 4,32 em pessoal e encargos (R$ 48,8 bi).
Ano passado, depois do corte dos investimentos para R$ 4,9 bi, cada real despendido nesta rubrica passou a representar R$ 11,10 em pessoal mais seus encargos.
Com os cortes anunciados por Weintraub, esta relação crescerá mais e não é improvável que, de quase três vezes maior, passe a quatro ou até a cinco vezes mais.
De novo, peço desculpas aos leitores por tratar do assunto de forma “contábil”, porque ele tem uma importância que transcende imensamente esta visão. O problema é que, da boca pra fora, todos louvam o investimento em educação e até o “Encarregado” diz que vai lançar o dinheiro dos cortes em “creches”, o que qualquer criança sabe que não se fará.
Mas por ser uma das áreas onde a hipocrisia nacional, a que desmonta em nome do “progresso”, mais se agarra para explicar o estado de penúria em que vivemos. é onde se precisa demonstrar, com seus próprios argumentos, como é falso o que dizem de forma cínica.
Na Educação, esta conta perversa é ainda mais grave. Ela se reflete em estagnação e, sobretudo no grau superior, na pesquisa pura ou aplicada da ciência, estagnação é morte.
Esta, sim, é o objetivo da turma do “corta-corta”. Não é para não ter festa no campus ou para reprimir “extravagância” de jovens em nome da “moral”.
Enquanto isso, as empresas privadas, aquelas que fazem uma educação “meia-boca”, escancaram por inteiro as suas bocarras, prontas para devorar o público formado por jovens que, sem o “canudo”, têm chance zero num mercado de trabalho cada vez menor.
Se o Exército está em ruínas, vai investir em soldo?
POR FERNANDO BRITO · 02/05/2019

Na entrevista que deu, anteontem, ao falar da precariedade de nossas Forças Armadas, Jair Bolsonaro disse que, militarmente, o Brasil “não pode fazer frente a ninguém” porque “não estamos bem de armamento”.
Embora seja uma asneira que diga isso alguém que está admitindo até uma “declaração de guerra” à Venezuela, Bolsonaro tem razão.
A única possibilidade de levar vantagem num conflito bélico com a Venezuela seria um colapso nas cadeias de comando do suposto “adversário”, se provocado pela entrada da Colômbia e dos Estados Unidos no confronto.
Por uma razão muito simples: o Brasil não tem vetores, os equipamento que permite a projeção territorial do poder militar: aviões, mísseis, submarinos e veículos de combate terrestres.
O pouco que poderíamos ter – desconsiderando as sucatas que já eram obsoletas quando as adquirimos – está atrasado e sendo mais atrasado ainda, porque para não se cancelar contratos “esticam-nos” no tempo de execução. Tudo – aliás tudo contratado nos governos Lula e Dilma – desde os caças Grippen,que dificilmente começarão a ser entregues no prazo, até os helicópteros militares, os veículos artilhados leves Guarani e os sistemas de mísseis Astros, tudo foi retardado para as calendas gregas.
No caso dos mísseis, onde também há atrasos provocados pela quebra da Odebrecht – que vendeu a Mectron para os israelenses da Elbit -, há também a nos impedir o tratado ao qual o governo Fernando Henrique aderiu que nos impede de ter mísseis de alcance superior a 300 km. Da fronteira com a Venezuela, essa distância só deixa como alvo algumas ocas de indígenas e casebres de camponeses, pois é a metade da distância até alvos com importância ao Norte.
Dito isso, qual são as primeiras providências tomadas por Bolsonaro?
Primeiro, criar uma despesa extra de R$ 86 bilhões, em 10 anos, com o aumento de soldos dos militares, quase o mesmo que todo o gasto com armamento pesado nos próximos 20 anos. Depois, cortar em R$ 5,1 bilhões – 38% do orçamento original para 2019 – as disponibilidades orçamentárias do Ministério da Defesa em 2019.
A não ser que se pretenda usar contracheques como armas – algo que faz parte da história de Bolsonaro desde que era “tenente-bombardeiro” na Aman, parece que nossas Forças Armadas continuarão dando razão ao seu ex-capitão e não vão poder “fazer frente a ninguém”.
Rumo ao PIB zero
POR FERNANDO BRITO · 03/05/2019

Semana passada, o Itaú reduziu a perspectiva de crescimento do PIB brasileiro para 1,4%. Ontem, o Citibank fez o mesmo.
Em quatro meses, cortou-se à metade a precisão do início do ano.
Hoje, o IBGE jogou uma pá de cal nas perspectivas de uma variação positiva do PIB do primeiro trimestre de 2019 sobre o trimestre anterior, ao anunciar uma queda de 1,3% na produção industrial de março, o dobro do que era esperado pelo mercado.
As instituições financeiras também vão revisar suas previsões: esperavam 2% de expansão na indústria e e, em um quarto do ano, o que têm é uma redução da produção industrial de 0,7% no primeiro trimestre deste ano frente ao quarto do ano passado e e um recuo de 2,2%, comparada aos primeiros três meses de 2018.
Hoje mesmo o Goldman Sachs disse que o número do IBGE nos coloca próximo de um “PIB negativo”.
É cedo ainda, acho, para dizer isso, mas certamente não é para dizer que este é o rumo que se está tomando.
Nossa situação só não é pior, neste campo, porque a desvalorização do câmbio têm sustentado alguns ramos da indústria que, de outra forma, estariam arruinados com as perdas de exportação para vizinhos como a Argentina.
Tudo isso ocorre e nem por um minuto o governo se afasta do seu “samba de duas notas”: reforma da previdência e intervenção – senão militar, ao menos belicista – na Venezuela.
Nenhuma das duas, claro, tem capacidade – muito ao contrário – de estimular produção e consumo.
A resposta do governo à crise econômica é o elogio ao “cada um que se vire”.
O que funciona muito pouco em quase todos os setores e que, de nenhuma forma, funciona e matéria de política industrial.
Os R$ 500 mil do Ministro da Educação não foram um erro, mas uma aberração
POR FERNANDO BRITO · 03/05/2019

Tales Faria, em seu blog, publica o vídeo – que reproduzo ao final do post – onde o ministro da Educação, Abraham Weintraub, e seu presidente do Inep, o delegado de polícia (!!!) Elmer Vicenzi discorrem, longa e laudatoriamente, sobre a grande proeza de gastar apenas R$ 500 mil para avaliar sete milhões de alunos do ensino funadamental.
Não é possível que aos dois, por tanto tempo, faltasse a percepção de que o numero estava errado (são R$ 500 milhões).
Agfinal, bastava saber fazer uma divisão simples para saber que R$ 500 mil para sete milhões dá 7 centavos por prova, o que não paga um pacote de figurinhas, aliás nem mesmo uma só delas.
A razão era outra, como aponta Tales:
Alguém lhes falou dos R$ 500 mil e eles resolveram usar rapidamente como instrumento de marketing sem se questionar: como era possível? O indicativo de impossibilidade era tão grande que imediatamente os repórteres, durante a entrevista, já questionaram a quantia. Como puderam um ministro e o presidente do Inep, cercados de técnicos, não terem desconfiado? Só a pressa em demonstrar devoção pelo imperador pode explicar. Aliada, é claro, ao ódio guerreiro pelos “inimigos” que criticavam a retenção de recursos para instituições de ensino e pesquisa.
Mas não se culpe em demasia a dupla de palermas.
Afinal, eles fazem parte de um governo que se ocupa de quinquilharias como se estas fossem a redenção nacional: os cabelos tingidos do comercial do Banco do Brasil, as bananas do Equador, os pintos mal lavados, a condecoração do Olavo de Carvalho…
A economia, o emprego, a produção afundando enquanto Bolsonaro toca a harpa de suas bobagens.
Em matéria de avaliar o aprendizado do público infantil, a depender dele, gastar sete centavos é um desperdício…
Helena Chagas, Moro e a ratoeira. Mas afinal, quem pega quem?
POR FERNANDO BRITO · 03/05/2019

Helena Chagas, em ótimo artigo n’Os Divergentes, hoje, diz que Sérgio Moro “caiu numa ratoeira” ao aceitar o cargo de “superministro” do governo Bolsonaro.
Verdade, no que diz respeito ao fato de que o ex-juiz se acostumou, ao longo de anos, em lhe fazerem todas as vontades, em aceitarem todos os seus atropelos à lei, em aplaudirem todas as mediocridades com que sustentava o se papel de dublê de chefe de uma “Mãos Limpas” brasileira, inclusive com a manipulação da imprensa para sustentar o seu “direito de guerra”.
Isso deu a ele a ideia de que, no governo, seria o mesmo e que Bolsonaro e o Congresso fariam-lhe as vontades e teve a confiança em que poderia deixar a toga – e a toca – para se aventurar atrás de seu “queijo”: o poder político.
Acostumado a moltar tudo por sua única vontade, subestimou os riscos.
A ratoeira é só o meio, a armadilha com a qual se prende o rato. Sem que houvesse a perda da prudência e o império do apetite pelo queijo, ela não teria chances de funcionar.
Não é a ratoeira que pega o rato, é ele que se faz pegar.
Moro caiu na ratoeira
Helena Chagas, n’Os Divergentes
Um pedido de demissão do ministro da Justiça, Sérgio Moro, por divergências em relação a posições do governo seria, a esta altura, um desastre político para o presidente Jair Bolsonaro – que já anda às voltas com uma insistente queda de popularidade. Por isso, Moro vem esticando a corda, numa investida pública, com seguidas entrevistas e manifestações, contra a transferência do Coaf de sua pasta para a Economia – o que, a depender do Congresso, hoje é muito provável.
Insatisfeito com essa e muitas outras trombadas que vem tendo no governo, onde já percebeu que não é prioridade, o que restaria a Moro? Pedir o boné e ir para casa?
Afinal, quase todas as suas derrotas têm o dedo do Planalto e de seus aliados. No caso do Coaf, por exemplo, o próprio presidente chegou a admitir negociar o retorno do órgão ao Ministério de origem em troca da aprovação da medida provisória que reestruturou administrativamente o governo sem outras mudanças mais danosas.
Com isso, Bolsonaro deixou Moro exposto ao sol e aos ventos da política, assim como em outros episódios constrangedores, como o da revogação da nomeação da socióloga Ilona Szabo e o quase engavetamento do pacote de mudanças penais enviado pelo ministro ao Congresso. Tudo indica que esse comportamento “quem manda sou eu” de Bolsonaro, meio semelhante ao que ele tem adotado em relação aos militares que supostamente o tutelariam, vai continuar.
E Moro, se derrotado mais uma vez, terá que avaliar se vale a pena continuar no governo para uma sucessão de desgastes e vexames. A possibilidade de sair tem sido aventada nos últimos dias por interlocutores próximos do ex-juiz, embora ainda cheire a pressão, sobretudo sobre o próprio chefe, para rever sua posição inicial sobre a devolução do Coaf.
O que se comenta nos meios jurídicos de Brasília é que a recente afirmação do ministro da Justiça de que seria “ganhar na loteria” ser nomeado para uma vaga no STF veio do fundo do coração. Foi um recado direto.
O grande problema é que nem isso está garantido para Moro, sobretudo se ele deixar o governo chutando o balde. Vaga no STF só haverá em 2020, e a nomeação depende da caneta de Jair Bolsonaro e, principalmente, da aprovação do Senado Federal – ou seja, daquele pessoal que não quer ver o ex-juiz da Lava Jato nem pintado.
Tudo indica que Sérgio Moro, apesar da popularidade, deve estar arrependido de ter deixado a toga pelo governo Bolsonaro. Caiu numa ratoeira.
Bolsonaro não é “o cara”, é o pária
POR FERNANDO BRITO · 03/05/2019

O cancelamento da viagem de Jair Bolsonaro a Nova York, para receber o prêmio – mambembíssimo – de “Homem do Ano” da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, afinal uma reunião de homens que querem negócios mais fáceis com os EUA, mostra mais que um constrangimento do atual presidente do Brasil.
Quatro meses após sua posse, Jair Bolsonaro se tornou um estigma – fora dos meios financeiros, de quem sabemos o que provoca-lhes o amor – pelo mundo afora.
Em nota oficial, o porta-voz da Presidência, general Otávio Rego Barros, passou recibo:
“Em face da resistência e dos ataques deliberados do prefeito de Nova York e da pressão de grupos de interesses sobre as instituições que organizam, patrocinam e acolhem em suas instalações o evento anualmente, ficou caracterizada a ideologização da atividade”
É claro que é ideológico, como tudo no mundo é. Mas também é mercadológico.
Se empresas cancelaram o patrocínio a esta homenagem, certamente não foi por “ideologia”, foi pelo prejuízo comercial que ela poderia render.
O jornal Financial Times, a companhia aérea Delta Air Lines e a consultoria Bain & Company, que cancelaram seus patrocínios ao evento não são “ideologicamente opositores” de Jair Bolsonaro, ao contrário.
Mas certamente não estão dispostos a pagar para grudar em si um estigma de selvagens, que é a marca que Jair Bolsonaro tem a lhes oferecer.
É, para tristeza dos “mercadistas” uma questão de mercado. Jair Bolsonaro dá mais prejuízo do que lucro.
Inclusive ao Banco do Brasil, que patrocinará o jantar de milionários ao qual o presidente não comparecerá e no qual há dúvidas se será representado pelo chanceler Ernesto Araújo ou pelo astrólogo Olavo de Carvalho.
O país que tinha “o cara” como símbolo, agora tem “o pária”.
C.Q.D. Não é estupidez, é crime
POR FERNANDO BRITO · 04/05/2019

As três letrinhas, sublinhadas por uma “meia-lua” eram escritas no quadro negro logo abaixo da dedução de fórmulas matemáticas, onde se evidenciava que uma relação conhecida levava à conclusão de outra, ainda não sabida: “Como Queríamos Demonstrar”, abreviavam elas, embora os mais antigos o fizessem ainda com a expressão latina: Q.E.D, quod erat demonstrandum.
O governo Bolsonaro, primário como é, torna semelhante a isso qualquer análise que sobre ele se faça: não é difícil deduzir que ele uma suas anunciadas ” mudanças de prioridades” apenas como justificativa pública para o que é, de fato, seu objetivo: o desmonte do Brasil.
Não é diferente, mostram os números revelados pelo Estadão, nesta história do “corte” das verbas das uiversidades, alegadamente para “investir na Educação Básica”.
A mentira é posta em evidência: quase 40% das verbas da educação básica estão cortados. No caso das creches e escolas de ensino fundamental, que Abraham Weintraub invocou como razão suprema dos cortes, a tosa foi de 45%% dos recursos: R$ 146 milhões dos R$ 265 milhões previstos para construção ou obra em unidades do ensino básico.
O ensino técnico, aquele que o ex-capitão diz defender para que os jovens possam trabalhar foi virtualmente extinto:
Foram retidos recursos até mesmo para modalidades defendidas pelo presidente e pela equipe que comanda o ministério, como o ensino técnico e a educação a distância. Todo o recurso previsto para o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico (Pronatec), R$ 100,45 milhões, está bloqueado. O Mediotec, ação para que alunos façam ao mesmo tempo o ensino médio e técnico, tem retidos R$ 144 milhões de R$ 148 milhões.
Até o Colégio Pedro II, aquele que o Imperador dizia que era a única instituição que ele desejaria governar, está inviabilizado com cortes de mais de 36% de seus recursos.
Esta gente odeia a educação, odeia o progresso, odeia a verdade.
São mais do que imbecis, como digo, são criminosos.
sábado, 27 de abril de 2019
A Argentina desce ao abismo e assusta Bolsonaro
POR FERNANDO BRITO · 26/04/2019

Se o leitor ou a leitora teve a oportunidade de ir à bela Buenos Aires, tempos atrás, e se acostumou ao câmbio de 2,5 pesos por real, vai entender o que digo com ua única informação: o nosso real, mesmo baqueado em dólar, está comprando, neste momento, quase que 12 pesos!
O país está entrando em colapso: em um ano, o risco país mais que dobrou – de 400 para mais de 900 pontos – e já ninguém acredita que, mesmo com o semicongelamento de preços, a inflação do ano fique abaixo de 50%. Isto por enquanto.
As agências que fazem seguro de risco já consideram que o país terá de decretar moratória – chamada no mercado de default – quando estiver para vencer o crédito de emergência obtido junto ao FMI.
Para uma geração que se acostumou em ver nos argentinos o famoso Efeito Orloff – “Eu sou você, amanhã” – é algo apavorante.
As pesquisas mostram que Maurício Macri segue descendo ladeira abaixo. Até dezembro de 2017, quando fez a reforma da Previdência, o atual presidente andava pelos 65 de aprovação, três vezes mais do que tem hoje.
Cristina Kirchner, perseguida pelo Ministério Público e pelo Judiciário, só não foi presa porque seu mandato de senadora obriga, para isso, que o Senado o autorize por dois terços dos votos, blindagem com que, lamentavelmente, Lula não contou aqui.
Apesar disso, já há algum tempo figura, com vantagem crescente, como a favorita nas PASO, as eleições primárias dos argentinos, na votaçao presidencial e, nos últimos dias, também no segundo turno – a balotage – que, entre eles ocorre quando o vencedor não tem 45% dos votos ou mais de 40% e uma diferença de 10% para o segundo colocado.
O vizinho de cima dos portenhos, portanto, parece que colocou as barbas de molho. Jair Bolsonaro, do nada, declarou que está preocupado com uma eventual eleição da ex-presidente, que – diz ele – traria uma “nova Venezuela” ao continente.
Dia 30, à tarde, para marcar o 1° de maio, estão previstas enormes manifestações contra a política econômica de Macri. Veremos se o Efeito Orloff ainda funciona dentroe de alguns meses.
Um líder não negocia nem por sua vida
POR FERNANDO BRITO · 26/04/2019

É preciso ser um sujeito totalmente desprovido de humanidade para não sentir o drama latente no texto de Florestan Fernandes Jr. com Carla Jimenes, no El Pais, com o qual se inicia a reprodução da entrevista feita hoje com o ex-presidentre Lula em seu cárcere em Curitiba.
É preciso, ainda mais, ser completamente obtuso para não ver que este é um documento de nossa história, um capítulo de um martírio que cruzará o século e que nossos bisnetos e trinetos aprenderão na escola.
É o Lula de sempre. Ele está igual. Quem esperava vê-lo envelhecido ou derrotado, se frustra. Ele tem fúria. E obsessão para provar sua inocência. “Não tem problema que eu fique aqui para o resto da vida. Quem não dorme bem é o Moro, Dallagnol e o juiz do TRF-4 [que confirmou sua condenação em segunda instância].”
Mas é também o ser humano que está submetido a perdas seguidas: a mulher Marisa Letícia, o irmão Vavá, o amigo de décadas Sigmaringa Seixas e, pior, o neto Arthur.
Lula está engasgado e sabe que esta entrevista é a oportunidade para falar depois de um ano silenciado pela prisão em abril de 2018. A conversa tem início e o ex-presidente ainda mantém um semblante sério. Mas uma pergunta quebra a rigidez. Quando é questionado sobre a morte do irmão Vavá, em janeiro deste ano, e o neto, Arthur Araújo Lula da Silva, de 7 anos, dois meses depois. “Esses dois momentos foram os mais graves”, lembra ele, citando também a perda do ex-deputado Sigmaringa Seixas, morto no final do ano passado. “O Vavá é como se fosse um pai pra família toda. E a morte do meu neto foi uma coisa que efetivamente não, não, não… [pausa e chora]. Eu às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido. Porque eu já vivi 73 anos, eu poderia morrer e deixar meu neto viver.”
Mas a garganta e os olhos marejados não lhe traem a cabeça:
“Sei muito bem qual lugar que a história me reserva. E sei também quem estará na lixeira.” Lula critica o ex-juiz Sergio Moro, responsável pela sua condenação, a Operação Lava Jato, e o procurador Deltan Dallagnol. “Reafirmo minha inocência, comprovada em diversas ações”. O silêncio é absoluto, apesar da presença de delegados da Polícia Federal e de três oficiais armados, todos a serviço da PF, que está sob o guarda-chuva do Ministério da Justiça, conduzido por Sergio Moro.”
Florestan narra que o velho líder “não está feliz nem triste, nem tampouco envelhecido. Mas está diferente”.
Lula diz que há outros momentos que o deixam triste, com uma mágoa profunda. “Quando vejo essa gente que me condenou na televisão, sabendo que eles são mentirosos, sabendo que eles forjaram uma história, aquela história do powerpoint do Dallagnol, aquilo nem o bisneto dele vai acreditar naquilo. Esse messianismo ignorante, sabe? Então eu tenho muitos momentos de tristeza aqui. Mas o que me mantém vivo, e é isso que eles têm que saber, eu tenho um compromisso com este país, com este povo”.
Em instantes, o vídeo de um trecho da entrevista.
O Lula que precisam calar. Assista
POR FERNANDO BRITO · 26/04/2019

Perdoe, Lula, pela comparação.
Mas dois dias depois de ouvir um presidente que é incapaz até de ler um texto, que vai pingando as palavras como um bode despeja o que comeu, ouvir a carga de emoção, de dignidade, de simplicidade, em sua fala na primeira entrevista depois de 13 meses de silêncio compulsório é, ao mesmo tempo, uma tristeza profunda, ainda que com esperança de que não sejamos, por anos a fio, o país da mediocridade estúpida.
Sabe, sua fala tem a natureza do que os gaúchos chamam de tronco “guarda-fogo”, que depois de uma madrugada de frio e de garoa, tem a brasa imortal dentro de si e vai acabar por nos aquecer na manhã mais fria e nevoenta.
Se alguém ainda não entendia porque é tão importante para esta gente manter Lula preso e calado, entenderá agora.
Para que servem os “factóides” de Bolsonaro?
POR FERNANDO BRITO · 27/04/2019

Há algo mais que o ridículo nas atitudes de Jair Bolsonaro de criar o fato consumado e, depois, fazer o governo dizer que “não é bem isso”.
Primeiro, com o reajuste do diesel anunciado, anulado e, afinal, efetivado pela Petrobras.
Agora, com a declaração do Secretário de Governo, general Carlos Alberto dos Santos Cruz de que “não tem validade” a ordem do presidente de que fosse suspenso o filmete do Banco do Brasil do qual “não gostou”.
O primeiro traço do episódio, bem evidente, é o desejo de “por em seu lugar” os dirigentes de empresas e órgãos do governo: suas decisões serão grosseira e grotescamente desautorizadas pelo Presidente da República, quando não o agradarem ou não lhe forem convenientes.
É o “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, a “enquadrada no tranco” que é, para Jair Bolsonaro, a forma de exercer a autoridade sobre aqueles que estão na administração pública ou na política.
O segundo é o de que a disputa entre os gestores militares do governo e os agentes do clã bolsonarista está instalada dentro da Secretaria de Governo, o ministério que, admnistativamente, gere as ações do Palácio do Planalto.
A ordem para retirar o comercial do ar, formalmente, foi feita pelo secretário de Publicidade e Promoção da Secom, Glen Valente, ex-diretor comercial do SBT, trazido para o governo na semana passada por Fábio Wajngarten, nomeado para a chefia da Secom por Carlos Bolsonaro, com direito a elogios de Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo.
Carlos e Olavo, como é sabido, embora com calibre menor, atiram em Santos Cruz como fazem com o vice Hamílton Mourão.
É, portanto, evidente que a tal “Instrução Normativa” invocada como razão para a ordem de “última forma” no veto ao filmete do banco foi apenas o “gancho” achado por Santos Cruz para enfraquecer o adversário colocado goela abaixo em sua cadeia de comando.
General sabe dar tranco, tanto ou mais que ex-capitão.
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