sábado, 13 de junho de 2015

JULGAMENTO:

O JULGAMENTO

SEÇÃO: OPINIÃO

Crimes hediondos de menor de 16 a 18 anos são 3 em mil delitos. A gota no mar da hipocrisia

13 de junho de 2015 | 02:34 Autor: Fernando Brito

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O  Estadão deu ontem uma lição de de mau jornalismo, aquele que, em lugar de mostrar a verdade de forma compreensível a todos, usa das palavras para confundir.
Claro que o leitor leigo, que só lê títulos, achará que estes menores cometem 70% dos crimes, não é?
Só que ato infracional é o crime cometido por menor, exclusivamente.
Donde a chamada deveria ser, no mínimo: “Adolescentes de 16 a 18 anos cometem 70% dos crimes praticados por menores”.
É até mais curto, que não se aleguem razões de espaço gráfico.
Mas a matéria, além do título, apesar da correção do repórter Marco Antonio Carvalho, por falta de editor à altura da apuração, perde a chance de dar números reais ao problema do menor infrator, que só estão explícitos no infográfico que acompanha o texto.
Foi feita sobre um levantamento do Ministério Público que abrangeu 22 mil crimes cometidos entre agosto do ano passado e maio passado e tem números reais, objetivos.
Os crimes cometidos por menores foram uma parcela expressiva: 4,4 mil, ou 20% do total.
Aí, a reportagem verifica que, destes 4.400 crimes, apenas 70 são os de homicídio, estupro e latrocínio em que os acusados são menores entre 16 e 18 anos, que seriam atingidos pela redução da maioridade penal nos crimes com vítimas, uma vez que o tráfico supõe a participação voluntária do comprador de drogas. E que o menor, nele, desempenha um papel totalmente secundário e substituível, em geral: o do “avião”, o simples transportador entre vendedor e comprador.
Isso quer dizer, no período analisado de dez meses, 7 menores  que se tornarão imputáveis por crime violento a cada mês, em um total de 2,2 mil crimes cometidos por mês.
Repetindo, para ficar claríssimo: sete, apenas sete.
Ou 0,32% do total de criminosos.
Traduzindo em números concretos: três de cada mil delitos praticados.
Ou, pensando do lado de quem é vítima: 997 vítimas, em lugar de 1.000, isso se os criminosos não forem repostos.
É esta a informação que a matéria não deu.
Coisa para fazer quem é capaz de pensar, pensar.
Infelizmente, não é algo capaz de fazer quem é capaz de urrar, em lugar disso, refletir.
Não é absurdo mudar algo na legislação, nem mesmo estender as penas dos menores que praticam crimes desta natureza para após os 18 anos, com gradações redutoras por comportamento, trabalho e aquisição de escolaridade.
Não é, entretanto, isso o que motiva a tentativa de mudança, mas a tolice de que isso vai mitigar o problema da violência.
Que desperdício de energia coletiva, este debate, que podia estar voltado para a escola, o ensino profissionalizante e a descoberta de fórmulas que associassem a proteção ao menor à sua inclusão, pela educação e pelo trabalho, na vida social.
Na peça “Gota D’Água” ,de Chico Buarque e Paulo Pontes, nos anos 70, distribuía-se, como guia, um pequeno jornal, que fazia referência à demolição – oficialmente, pelas obras do Metrô –  da “Vila Mimosa”, centro da prostituição pobre do Centro do Rio, em que se dizia, ironicamente, que “prostituição é um mal social que picareta não derruba”.
Criminalidade também.

SERÁ QUE É SUFICIENTE ?

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SEÇÃO: OPINIÃO

Lula mostrou o DARF. Quem falta mostrar?

13 de junho de 2015 | 11:05 Autor: Miguel do Rosário
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Dia 13 de junho de 2015. Do início do ano até o momento, a sonegação no Brasil chegou a 232 bilhões de reais.
Ou seja, com o valor de 5 meses e meio de sonegação, daríamos para cruzar o país com trens de alta velocidade, e construir ou expandir os sistemas de metrô de todas as capitais brasileiras.
A mídia iniciou nova cruzada contra Lula, porque ele recebeu, limpamente, transparentemente, abertamente, pagamento para as palestras que proferiu no exterior, dentre outras atividades típicas de ex-presidentes e seus institutos.
Lula recebeu pagamentos ligados a algum helicóptero lotado de cocaína?
Não.
Lula recebeu dinheiro público, como recebeu o Instituto FHC – R$ 6 milhões de verba pública para fazer um “acervo”?
Não.
Lula fez aeroporto em terras de sua família, como fez um ex-candidato a presidente da república?
Não.
Lula nomeou sua irmã para gerir as verbas de publicidade de seu governo, como fez o mesmo candidato citado anteriormente?
Não.
Lula encheu seu governo de parentes, como fez o mesmo candidato?
Não.
Neste momento, existem várias operações de grande porte da Polícia Federal investigando gigantescos esquemas de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
Algumas dessas operações investigam empresas de mídia, como é o caso da RBS, a Globo gaúcha.
Apenas uma dessas operações, a Zelotes, investiga desvios que podem chegar a R$ 20 bilhões.
Ontem mesmo foi deflagrada, em São Paulo, uma operação em conjunta dos fiscos federal e municipal, contra 50 escolas privadas da cidade, e algumas faculdades, que não pagavam devidamente seus tributos.
Há uma crise ética no país, sim, e que começa por nossa elite e sua mídia, que sempre fizeram campanha contra o pagamento de impostos, a única fonte de renda do Estado para investir em infra-estrutura, saúde e educação.
É preciso reduzir gastos de alguns setores de Estado. Por exemplo, a farra das ajudas de custo do Judiciário. Por que a mídia não a denuncia? Porque a mídia quer o Judiciário como aliado de classe para ferrar o povo.
A mídia manipula o Judiciário, através de propinas públicas, como é o caso do Prêmio Faz Diferença, ou ameaças veladas e ultra-agressivas, como já assistimos diversas vezes: juízes que não comem na mão da mídia são vítimas de verdadeiras campanhas de difamação.
A CPI da Petrobrás chamou Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula, para depor. Ele vai lá mostrar o que já mostrou faz tempo: o Darf de Lula.
Esperamos que os nobres congressistas, diante do exemplo de Lula, cobrem das grandes empresas a mesma transparência e a mesma probidade. Que sejam severos na cobrança dos impostos que pagam seus próprios salários, a verba de seus gabinetes e todos os serviços públicos que o Estado presta ou deveria prestar à população.
Tem uma emissora aí, por exemplo, flagrada roubando centenas de milhões do erário, através de uma “intrincada engenharia financeira” em paraísos fiscais, que até agora não mostrou o seu Darf.
O Brasil está precisando desse dinheiro para investir em sua infra-estrutura e em seus sistemas de saúde e educação.

AVISO PARA OS VIZINHOS

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SEÇÃO: POLÍTICA

El País comenta a visita de Dilma aos EUA

13 de junho de 2015 | 12:05 Autor: Miguel do Rosário
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No próximo dia 30 de junho, a presidenta Dilma estará em Washington, em visita oficial a Barack Obama.
O colunista do El País, Juan de Onis, fez algumas observaçõespertinentes a este encontro. Como Onis não é diretamente ligado às nossas futricas domésticas, achei interessante recortar e reproduzir aqui trechos de seu texto.
Em seguida, volto para um comentário.
Chaves para a histórica visita de Dilma aos EUA
A viagem da presidenta a Washington pode ser boa não só para o Brasil, mas para toda a América Latina, incluindo Cuba
(…) O mundo financeiro norte-americano, que tem investimentos no valor de 60 bilhões de dólares no Brasil (cerca de 190 bilhões de reais), não quer nem ouvir falar de impeachment. O que deseja é uma recuperação econômica rápida. Obama, certamente, oferecerá seu apoio às medidas de ajuste fiscal das deterioradas finanças brasileiras, que Dilma está conduzindo com uma nova equipe econômica liderada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
(…)
Há consenso em Washington que o programa de ajuste fiscal depende da recuperação da confiança na economia brasileira. Isso ficou claro durante a visita ao Brasil em maio de Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois de elogiar a redução da pobreza e da desigualdade graças aos programas sociais do Brasil, Lagarde apoiou incondicionalmente o programa econômico de Dilma: “Avaliei com satisfação o ambicioso plano de ajuste fiscal do Governo. Este irá ajudar a estabilizar a dívida pública e, posteriormente, reduzi-la. Isso é acompanhado de uma política monetária disciplinada, destinada a impedir o aumento da inflação”.
(…) O Brasil continua sendo um mercado importante para os bens e serviços tecnológicos importados dos EUA, embora pudesse substituir muitas dessas importações com produção doméstica nacional se melhorasse sua eficiência e competitividade. O aumento das exportações brasileiras também depende dessas reformas internas.
(…) E a China escolheu o Brasil como seu parceiro estratégico na América Latina, com um plano de investimentos de mais de 50 bilhões de dólares em infraestrutura e tecnologia. Durante sua viagem em maio ao Brasil, Colômbia, Peru e Chile, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, deixou claro que o grande projeto de Pequim é aumentar a influência chinesa na região, através da construção de ferrovias, portos e infraestrutura de telecomunicações que integrem a logística continental, um antigo desejo sul-americano que nunca se concretizou. Esse movimento da China no xadrez geopolítico global não é visto com indiferença pelos Estados Unidos e abre novos horizontes econômicos em uma região tradicionalmente mais próxima dos investimentos norte-americanos. A China não vai jogar os EUA para escanteio na região, mas será um novo ator com grande peso financeiro. Haverá colaboração suficiente entre os dois para promover o desenvolvimento latino-americano? É sobre isso — e especificamente sobre o Brasil — que Dilma e Obama vão discutir em 30 de junho.
(…) Ao eliminar Cuba de sua lista de países que praticam o terrorismo, os EUA estão preparando o terreno para novos investimentos privados na ilha. Outros países, como Espanha e Canadá, já estão aproveitando as oportunidades de turismo e comércio com Cuba. Mas o Brasil ultrapassou os EUA com um financiamento de 400 milhões de dólares para a construção de um grande porto no Mariel, na costa norte de Cuba.
(…) Além da grande indústria agrícola, o Brasil conduziu uma política bem desenvolvida de apoio à agricultura familiar, com mais de três milhões de pequenos proprietários rurais que recebem empréstimos subsidiados e assistência técnica para produzir alimentos.
(…) Esta é uma grande oportunidade para que Brasil e Estados Unidos colaborem para impulsionar a economia cubana, oferecendo financiamento e tecnologias que Cuba necessita. Seria um exemplo de que a aproximação vai além de apertos de mão e fotos sorridentes de Obama com Raúl Castro. Cuba precisa de acesso ao mercado vizinho dos EUA para sair do fundo do poço, mas para isso também necessita produzir mais e exportar mais de forma competitiva. É outra questão que Dilma poderia discutir com Obama, se houver uma vontade real de cooperar.
***
Voltei.
Eu destaquei em itálico um trecho em que o colunista, sem querer, fez um alerta: há, obviamente, conflitos de interesses entre Brasil e EUA, ou mesmo entre Brasil e China. Interessa a esses gigantes que nós continuemos importando produtos tecnológicos, então esse é um cuidado que devemos ter: precisamos jogar o jogo da geopolítica sem comprometer o investimento interno em novas tecnologias, para não ficarmos para trás.
Por outro lado, a visita de Dilma à Obama pode representar um importante trunfo político do governo. Novos acordos comerciais e políticos com a maior potência mundial corresponderiam ao fim de alguns barulhos golpistas aqui dentro, porque o grande capital exigiria um mínimo de estabilidade para obter retorno de seus investimentos. O colunista enfatiza que os investidores americanos “não querem nem ouvir falar de impeachment no Brasil”, porque entendem (pelo jeito, mais do que a nossa mídia irresponsável) que isso corresponderia a um longo período de instabilidades e caos, gerando prejuízos incalculáveis para todos que têm dinheiro investido em negócios aqui, e os americanos têm, segundo o colunista, quase R$ 200 bilhões investidos aqui dentro.
Essa informação nos ajuda a entender o recuo do PSDB. O Tio Sam deve ter puxado a orelha de alguns tucanos, alertando que impeachment é coisa de república de banana. Diante da magnitude dos investimentos feitos por empresas norte-americanas no Brasil nos últimos anos, uma aventura irresponsável desse porte não encontraria suporte político nem da comunidade de investidores, nem do governo dos Estados Unidos.
A teoria confirma o que eu vinha observando desde que o presidente do BID, Luis Alberto Moreno, fez elogios ao governo Dilma. O mundo encheu o saco do pessimismo golpista da nossa mídia. O Brasil tem uma grande economia, repleta de anticorpos para todo o tipo de dificuldade, e o país voltará a crescer em breve.
Não interessa a ninguém, nem aos EUA, nem à China, nem sobretudo aos brasileiros, essas campanhas golpistas de desestabilização.

RECADO DO DIA DOS NAMORADOS

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SEÇÃO: CIDADANIA

O golpe, por Fernando Brant

Enviado por JNS
Do 50 anos de textos
Por Fernando Brant
Devemos nos lembrar sempre, para que não ocorra de novo.
Eu tinha 17 anos e acompanhava com muito interesse a movimentação política. Lia jornais, ouvia rádio e vi, ao vivo, pela televisão, o comício do dia 13 de março, no Rio. Estudava no Colégio Estadual, instituição pública de ensino exemplar. Nos intervalos e nas salas de aula, as conversas sobre cultura e arte, e o olhar sorrateiro para as meninas que subiam e desciam pela rampa, dominavam o ambiente e foram ponto de partida para o que sou hoje.
Passando a Semana Santa em Diamantina, recebia assustado os rumores de uma possível quartelada, enquanto Dom Sigaud abençoava os frequentadores dos botequins da cidade. Voltamos para Belo Horizonte a tempo de acompanhar de casa os acontecimentos. Na Rádio Nacional, os amados artistas pregavam pela legalidade. Na Rádio Inconfidência, destoando, animadores de auditório apoiavam a ação dos golpistas.
Triste, chorei e sofri com o resultado final. “Minhas lágrimas continuam justas”, eu escreveria alguns anos depois para o final do filme Jango, de Sílvio Tendler.
21 anos mais tarde dessa desgraça que se abateu sobre os brasileiros eu teria meu momento de desforra quando, diretor artístico da rádio pública de Minas, com alegria e muito trabalho, junto com os radialistas e jornalistas, colocamos no ar, durante todo o dia, a festa da vitória no Colégio Eleitoral, que trazia de volta a esperança e a democracia. Como nem tudo é perfeito e a vida nos prega peças indesejáveis, acabamos tendo de engolir o sapo Sarney.
A Cultura me alimentou durante esse período de repressão e escuridão. O teatro, com espetáculos poéticos que nos inflamavam, vindos do Rio, São Paulo ou nascidos aqui mesmo, carregava nossas baterias para que suportássemos os tempos que se anunciavam. Música, cinema e literatura eram um saboroso combustível para o quase menino que eu ainda era. Havia o trabalho, a faculdade, os amigos e as passeatas que percorriam as ruas da cidade em protesto.
Quando em 1968 vieram o AI-5 e o 477, o ato institucional contra a liberdade na educação, a coisa piorou. Senti isso de modo profundo quando voltei às aulas no início de 1969. Tudo era um vazio e um silêncio. Fomos levando nossas vidas na resistência pacífica, eu já escrevia canções nesta época, mas muitos daqueles jovens que beiravam os vinte anos acabaram empurrados para a luta clandestina, o que resultou em muita morte.
Tempos de desespero aqueles, que devem ser lembrados para que não mais ocorram. Ditaduras e ditadores, sob qualquer pretexto ou ideologia, merecem desprezo, repulsa e nojo.

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HUMOR:

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SEÇÃO: OPINIÃO

Cynara: “atitude muito corajosa de Jô Soares”

13 de junho de 2015 | 12:45 Autor: Miguel do Rosário
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Jô Soares, o cara na Globo que gosta da Dilma
Por Cynara Menezes, Socialista Morena
O ar désolé de William Waack ao anunciar a próxima atração era uma pista para o que viria a seguir: o apresentador Jô Soares em um encontro para lá de amistoso com a presidente Dilma Rousseff no palácio da Alvorada. E “o gordo” já começou dizendo a que vinha: fazer uma entrevista-desagravo à presidente, que está sendo alvo, disse, de uma campanha “absurda” por parte de gente que não se conforma com o resultado da eleição.
“Eu comecei a ter uma reputação de petista fanático porque saí em sua defesa quando começou aquela onda absurda, louca, de ‘fora Dilma’. A pessoa não acredita muito que na democracia, quando a pessoa é eleita, tem que se respeitar o voto. Saí em sua defesa, não que você precisasse, mas tem certas coisas que me deixam indignado”, comentou Jô. Ou seja, o apresentador global deixou patente que vê as manifestações como choro de perdedor. Uau.
Jornalisticamente, é preciso que diga, a entrevista não foi lá essas coisas. Uma entrevista rende muito mais quando se faz um bom número de perguntas ao entrevistado (não necessariamente ardilosas), sem deixá-lo falar tanto. Quanto maior a variedade de temas, mais variada, claro, fica a entrevista. Faltaram vários temas, em minha opinião, principalmente provocações sobre a relação entre Dilma e os detentores do poder no Congresso, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Jô só tocou no nome deles en passant, e para criticá-los.
Mas há dois pontos a se levar em consideração: o primeiro é que Jô Soares não é jornalista e sim um entertainer – que tem, atenção, a “permissão” de se posicionar politicamente, ao contrário dos jornalistas, nos meios tradicionais. O segundo é que o objetivo dele com a entrevista não era colocar Dilma na parede, coisa que vimos à exaustão toda vez que ela apareceu diante das câmeras respondendo a jornalistas brasileiros –no Jornal Nacional, então, nem se fala. O objetivo de Jô era mostrar como Dilma pensa e como quer governar o País. E, neste aspecto, é possível dizer que foi a primeira entrevista que a presidente deu desde que se elegeu em 2010 em que pôde fazer isso. Todas as entrevistas de Dilma no Brasil tinham ar de duelo, normalmente concedidas no calor de uma campanha eleitoral.
Jô Soares, ao contrário, levantou a bola para Dilma cortar em praticamente todas as perguntas. À vontade, sem ser interrompida, a presidente, mesmo com a prolixidade habitual, pôde explicar o que tem feito e quais são suas metas para os próximos quatro anos. E, diferentemente da Dilma “marionete” de Lula que pintam, sobressaiu uma governante segura do que tem na cabeça. Para exasperação de seus opositores, Dilma transmitiu uma imagem de mulher extremamente preparada para o cargo. Quer você goste dela ou não, ficou bastante óbvio que ela não está ali por acaso e sabe exatamente o que está fazendo. Se você não concorda com o que ela está fazendo (e aqui incluo a esquerda que votou nela) é outra história, mas que ela tem a coisa clara na cabeça, tem.
A entrevista de Dilma Rousseff ao Jô foi praticamente um anti-panelaço: contra os que quiseram calar a presidente pelo grito, o entrevistador mais famoso do Brasil lhe ofereceu voz. Elogiou seu gosto pela leitura, mostrou-se admirador de sua passagem pela luta armada durante a ditadura e não disfarçou sua confiança no projeto de governo dela. Jô gosta muito de Dilma, simpatiza com a pessoa dela, isso ficou evidente. O recado foi dado à emissora onde trabalha: “Vocês não gostam dela, mas eu gosto e vão ter que me engolir”. Aos 77 anos de idade e 54 anos de carreira, Jô Soares pode fazer isso. Para culminar, terminou a entrevista com um galanteio hilário à presidente em pleno dia dos namorados, antes de beijar sua mão: “Foi bom para você também?” E foi bem isso mesmo, um “beija-mão”. Jô estava ali para ser um gentleman com Dilma.
Na manhã seguinte à entrevista, as redes sociais estavam ouriçadas. Os “defensores da liberdade de expressão” de costume atacavam Jô Soares sem o menor respeito. “Fim de carreira”, “sem caráter”, “sempre foi fraco”, além dos xingamentos impublicáveis característicos ao grupo. Não poderiam faltar as acusações de que Jô “recebe dinheiro” do PT: a captação pela Lei Rouanet para a montagem da peça Troilo e Cressida, de Shakespeare, foi transformada imediatamente em suborno. Gente capaz de vender sua ideologia por 30 dinheiros acha que todo mundo faz o mesmo.
Pois eu achei uma atitude muito corajosa de Jô Soares de fazer este desagravo a Dilma, ainda mais em plena TV Globo, emissora que integra a oposição midiática ao PT e a seu governo. Jô demonstrou que não está disposto a abrir mão de suas convicções, ainda que isto lhe resulte em seu linchamento por parte de gente que aprova linchamentos. Coragem é sempre algo admirável em um personagem público.

sábado, 6 de junho de 2015

É MUITA FUTILIDADE DESSE JORNAL!

POMBA

SEÇÃO: POLÍTICA

Carta ao doutor Sócrates sobre o Brasil careta, por Xico Sá


Sugerido por Galileo Galilei
Por Xico Sá, no El País

Sim, doutor, aqui na terra vão jogando futebol, tem muito mimimi, muito samba e rock'n'roll, só quero lhe dizer, Magrão, que a coisa aqui está careta, sobra quase nada de maluquice e o país só faz curvas perigosas à direita. Rapaz, que fase, que doideira, que merda, desculpa ai, família brasileira, que indecência.
Mas veja que do caralho: o Blatter, da Fifa pediu o boné, caiu fora, Marin está preso (leia mais adiante doutor) e o Del Nero tenta, no máximo, um golpe para ficar no poder da presidência da CBF. Sem chances. Qualquer negociata, e não são poucas, do Marin atingem esse infeliz de picaretagens tantas ainda na direção da Federação Paulista de Futebol.
No que digo, amigo Sócrates, logo você, irmão, que viu como a ideia de Democracia Corinthiana no gramado foi mais pedagógica do que mil horas de sala de aula de Educação Moral e Cívica dos assassinos da Ditadura, logo você, a própria ideia de utopia com a camisa número 8 mais genial de todos os tempos, logo você, Magrão, saiba que o Brasil encaretou de vez, que erro, que passa?
Óbvio que temos nos falado nos terreiros, como naquela madruga (rindo até agora) em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, lembra que deu até de calcanhar na bola da criança que passou entre nós, aquele menino com a camisa do Barcelona? Sim, Magrão, aqui na terra estão jogando futebol e os guris não lembram mais dos nossos times, só pensam em Champions League, repare no tamanho do prejuízo histórico.
Aqui vai mais uma cartinha, velho, desculpa este nordestino desgraçadamente epistolar, rapaz. Nada como uma carta de amor ou amizade, Magrão, só uma carta transmite, pelas maltraçadas linhas, o real sentimento dos homens que perderam amigos... Amigos cujas ausências desmantelaram uma narrativa de estar no mundo. Quando partiu, doutor, vaguei perdido por São Paulo uns dez dias, procurando fiapos dos nossos assuntos e ideias das nossas crenças e motivos. Sentava ali na Mercearia São Pedro e o esperava... Naquela mesa está faltando ele... E a saudade dele... Está doendo em mim... Que falta faz a esse Brasil caranguejo que só cisca para trás!
É, caro amigo Sócrates, o jogo anda truncado: o avanço ficou para as cucuias, lá nas primeiras gestões da turma do cordão encarnado (vermelho), nesse imenso pastoril brasileiro. O cordão azul hoje deita e rola. O pastoril está cada vez mais sacro e nada profano, melancólico, e o Velho Faceta e suas gostosas pastoras deram lugar aos pilantras profissas, falsos profetas que enganam os pobres em nome de línguas de Pentecostes. Ladrões da fé da massa.
Desculpa, doutor Sócrates, nem gosto de ser tão incisivo assim; penso logo na minha mãezinha hoje evangélica, assim como metade da família. Mas é que reparo em cada picaretagem pseudo-pentecostal que só vendo, amigo. Avimaria. E a crise econômica faz dos falsos profetas mais filhos da puta, perdão, ainda, eles amplificam a demonização sobre os costumes. Vivem da ideia do diabo, este sim um inocente que não tira um centavo da pobreza brasileira, amém. Nunca precisamos tanto do diabo como agora. O diabo é o único que não cobra pedágio, mesmo que o usem para roubar a pobreza.
Contradições Futebol Clube
E o festival de contradições de sempre movendo a história, doutor Sócrates: o governo supostamente de esquerda com cartilha pelo avesso, Quinca Mãos de Tesoura cortando tudo e a direitona, que deveria amar filosoficamente a tesourada, chiando pacas, dá pra entender? Tudo na base do farinha pouca meu pirão primeiro. Que classe média fuleira na filosofagem da existência.
Quinca Mãos de Tesoura, estou fora. Por essas e por outras é que eu sigo devoto do meu santo Quincas Berro D´água, o velho-menino baiano por excelência, o branco dos olhos tingido de vermelho por brasas do delírio, coração maneiro, o jeito leve de pedir passagem a quem de fato. Só respeita os orixás e os deuses que dançam! Certíssimo, grande Jorge Amado, o autor baiano que nos deixou um legado de travessuras e possibilidades de reinvenções. Como a ideia do Brasil que apostamos, o Brasil perdido que buscamos...
Quero os clichês do Brasil de volta, camarada. É tudo que peço e rogo, Magrão. O pior que aconteceu é que roubaram até nossos clichês, como um país cordial —leia o belo artigo do Luiz Ruffato aqui mesmo neste jornal. Pela volta dos clichês, pois somos bons nisso, somos um povo alegre e inzoneiro, como a canção popular nos fez ouvir nos tantos benditos. E não perdemos de tudo isso, baita erro também achar que o Brasil é só violência e estatísticas negativas. O Brasil, contradições à parte, é do caralho, país incrível.
Corinthians, de novo
Porra, doutor, viu, viste o Corinthians? Sei que tinha, tinhas, algo melhor para fazer nesse baile pós-vida e mais-valia na poeira das estrelas. O mais maluco, amigo, o Grêmio jogando um futebol bonito até os dez minutos do primeiro tempo. Esquece. Segue o jogo, o Milton Leite, nosso narrador, te manda um abraço. Aqui na terra vão jogando futebol... Grêmio 3x1, doutor, esquece.
Magrão, te contei não? O Blatter renunciou, juro! José Maria Marin (ex-CBF), aquele que dedurou o camarada Herzog ainda na Ditadura Militar, está em cana. Xadrez suíço como a grana naturalizada dele, mas já é alguma coisa. O resto, fala com o nosso amigo Juca Kfouri, ele dá a letra, Juca é o responsável por não desistirmos nunca de tais apurações. Fala com o Juca, ele te conta tudo, sabe que sou mais do discurso dos fragmentos amorosos...
Magrão, falar nisso, vi uma mulher hoje na tua barraca em Copacabana, vixe, que, sei lá, que aniquilamento da humanidade. Danada. A barraca “Doutor Sócrates” está de pé no posto 6, mas nem sempre, o dono é sábio, acredita, como a gente, no ócio criativo. Porra, doutor, que saudade, mas sem mimimi, por supuesto, fui lá naquele terreiro de Duque de Caxias só pra gente não se perder de vez de vista, a poeira das estrelas é uma maluquice ai por onde fez morada, fez, fizeste.