sábado, 24 de setembro de 2016

Porque Cristovam Buarque não merece mais ser chamado de professor

gamba
Não gosto de dirigir ofensas pessoais a ninguém, mas há horas em que a dignidade nos obriga a dizer verdades que, na consciência plena de culpas de um traidor ou de um fariseu, soam como ofensivas.
Li uma breve manifestação do senhor Cristovam Buarque sobre a reforma educacional proposta pelo Governo Temer.
Ele elogia a volta da divisão escolar, lembrando do “clássico’ e do “científico”  que existiram até os anos 60.
Só um energúmeno pode fazer algo assim, sobretudo quando viveu aqueles tempos.
Para quem não os viveu, eu conto.
O curso “Normal” (que não se perca pelo nome) era para as “moças”, que ou seriam professoras primárias ou, tendo outras aspirações deveriam fazer o clássico, para seguir carreiras “recatadas”, das artes e do espírito,  bem como os homens que visassem a formação superior em Ciências Humanas.
Já os rapazes “pragmáticos” faziam o científico, como fez Cristovam para ser engenheiro.
As disciplinas pouco diferiam, mas a ênfase, sim.
A alternativa era o curso técnico, onde também imperava o sexismo. Na minha turma – a de 74 – da Escola Técnica Federal, hoje Cefet, havia apenas uma mulher, porque o curso não era para “meninas” que, afinal, não se prestavam a estas coisas mecânicas e não era bom que conhecessem tornos, fresas, forjas ou fundições, em lugar de panelas, caçarolas, frigideiras ou travessas.
É óbvio que o ensino médio precisa de cursos técnicos. Orgulho-me do meu.
Mas o que se está fazendo não é colocar mais áreas de conhecimento à disposição dos que as desejem, mas tirar algumas que são necessárias à construção de seres humanos plenos.
Para que artes, se não é necessário expressar sentimentos, impressões, sensações, se não é necessário compreender que é por ela e com ela que o homem, desde as cavernas, começou a escrever e contar e transmitir conhecimento?
Não sei se o senhor leu Nossa Senhora de Paris – talvez só tenha assistido a sua versão Disney, “O corcunda de Notre Dame”. Mas se acaso o leu, talvez se lembre da cena em que Cláudio, o arcediago da Catedral, aponta um dedo para as torres da igreja, com seus gárgulas e pousa a mão sobre um livro, dizendo “isto substituirá aquilo”.
Porque, até então, sem letramento, só a monumentalidade da arquitetura era capaz de levar a todos ideias, sentimentos, símbolos.
O conhecimento, se o senhor ainda fosse um professor saberia, não é um castelo onde seja dispensável conhecer alguns compartimentos que “não vêm ao caso”.
Para que é que um jornalista deveria saber matemática, não é mesmo, ex-professor? Ou para que um engenheiro mecânico como o senhor deveria saber algo sobre filosofia?
Pois eu não sei se o senhor, depois de ser apresentado como “intelectual” ainda precisa saber como se decompõem os vetores de força numa das belas estruturas que o Niemeyer fez aí em Brasília, para entender porque aquilo para de pé e não cai.
Mas eu, jornalista, sou imensamente ajudado pela capacidade que adquiri ao entender o que é “limite”, o que é “função”. E, talvez, para dizer ao senhor que matemática vem do grego que, livremente traduzido, quer dizer “o que se relaciona ao aprendizado”.
Já que não tenho certeza que o senhor tenha lido Victor Hugo, espero que, como muitos de nós, aí pelos 60, tenha lido “O Homem que Calculava”, de Julio César de Mello e Souza, o Malba tahan.
O senhor há de recordar que Beremiz Samir, o tal homem, foi desafiado a ensinar matemática à princesa Telassim, pois que era impossível que uma mulher aprendesse as artes dos números, que só importavam no “mercado”, coisa que não era para elas.
E a primeira frase que Beremiz lhe diz é: “Medir, senhora, é comparar”.
Pois eu, como Beremiz ensinava, o meço, senhor Cristovam, comparando-o: em que o senhor difere, em seus atos, de um Magno Malta ou de um Jair Agripino Maia, seus parceiros de golpismo e de sabujismo a Temer?
Mas me penitencio, também, não apenas por um dia lhe ter dado o meu voto, como por não o chamar mais de professor.
Afinal, o senhor ainda ensina. Ensina, pelo exemplo negativo,  como um homem não deve apodrecer com o tempo.

CONSELHO DE MÃE. É BOM ATENDER

CONSELHO

Reforma educacional de Temer é pior do que parece: só a parte boa é mentira

contadotemer
Vou reproduzir, no próximo post, um texto de Gaudêncio Frigotto, professor do Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro , que disseca -como projeto reacionário e elitista que é – o projeto de reforma do Ensino Médio lançado de surpresa e sem qualquer debate público, via Medida Provisória, pelo governo Michel Temer.
Antes do professor, porém, peço licença para usar o meu velho cartesianismo para demonstrar que a única parte positiva do dito programa, a elevação da carga horária e o turno de sete horas, beirando o ensino de horário integral é, numa palavra bem direta, mentira. Sua implantação progressiva, prevista na MP, não existirá ou, na melhor das hipóteses, seletivíssima, reduzida a algumas unidades onde haja interesse político em fazê-la acontecer.
É simples o raciocínio: como, salvo engano, o número de alunos não vai diminuir (ou não deveria diminuir) tome-se uma escola de ensino médio que atenda 700 alunos em cada turno de 4 horas em que hoje funciona.
Como não se tem notícia de  que o plano venha acompanhado de um programa de construção e ampliação de escolas, esta mesma unidade terá de atender aos 700 alunos (2 x 350) com o mesmo espaço, as mesmas instalações e o mesmo pessoal.
Só há uma maneira de fazê-lo: dobrar o tamanho das turmas. Se tinham 30, passarão a ter 60.
Hoje, a maioria dos Estados, já diante das carências que possuem, fixa um máximo de 40 alunos por turma  no ensino médio.
Se a nossa escola que serve de modelo tiver, numa hipótese generosa, 35 alunos por turma, para atender ao limite de 40 por classe, ela tem hoje a necessidade de dez turmas (e salas de aula ou atividades) por turno.
Agora, sem novas escolas ou ampliações de peso, precisaria ter, durante todo o dia,  18 turmas (e salas)  pois 700/40 = 17,5.
A menos que a escola tenha hoje 8 salas vazias, não cabe. Quem vai bancar a construção de dezenas de milhares de salas de aula no país?
Ou será que vão fazer uns “puxadinhos” nas que têm quadras esportivas, agora inúteis, sem as classes de educação física?
Leonel Brizola para começar – começar, apenas – a implantar o turno único nas escolas, fez um programa de construção de 500 Cieps (aliás, sem dinheiro federal), quando a rede estadual andava pela média de mil escolas.
Há outro pequeno “detalhe”.
Manter um aluno na escola por sete horas implica – é óbvio – em custos maiores. Como estas escolas são mantidas pelos governos estaduais e estes estão – quase sem exceção  – quebrados, de onde virá este dinheiro?
O Governo Federal vai entrar com a parcela extra de gastos? Como, se o próprio governo mandou ao congresso uma proposta que congela os gastos – inclusive os com educação – ao limite máximo da correção inflacionária?
Quem vai pagar? O Alexandre Frota?
Portanto, antes que o professor Frigotto exponha o conteúdo didático da proposta, atrevo-me a demonstrar, como num quadro negro, que a história das sete horas diária é, como disse, MENTIRA.
O que, afinal, não chega a ser uma surpresa vindo de dois mentirosos como o “Mendoncinha” da educação e de  Michel Temer.
É o “dourado da pílula” que só engana os otários, que vão ficar louvando o “ensino integral” que só existe como desculpa para enfiar goela abaixo do país um retrocesso inacreditável de repartição do conhecimento na base do “você só aprenderá o que eu acho que será útil na sua vidinha medíocre”.

A lambança autoritária está minando a Lava Jato

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Começou no show do Powerpoint dos rapazes de Curitiba, mas Moro bancou e aceitou a denúncia, certamente contrafeito de não ter como agregar a ela uma prisão preventiva ou temporária.
Mas a invasão do hospital, hoje, não deu para segurar.
E Moro teve de sair correndo atrás de reparar o estrago com a revogação da ordem de prisão, com um despacho de “cabo de esquadra” dizendo que, certamente, as autoridades do MP e da PF “não sabiam” da situação.
Será que foram ao Hospital Sírio-Libanês achando que a mulher de Guido Mantega estava fazendo as unhas do pé?
Será que não tinha delegado numa operação desta monta?
Será que o delegado não tinha o telefone do outro delegado e este o dos promotores e estes os do Dr. Moro?
– Chefe, ele foi com a mulher no hospital, ela vai operar um câncer, o que eu faço, meto bronca lá no hospital mesmo?
Afinal de contas era a prisão de um ex-ministro da Fazenda, o que, pela repercussão, não acontece toda hora…
Pior, já havia sido determinada há mais de um mês, como o Tijolaço mostrou hoje. Será que o juiz, os promotores e os delegados não estavam lembrados mais?
E se Mantega era tão perigoso – seja por risco de fuga, seja por destruição de provas – não estava sendo monitorado?
E se é tão perigoso, porque revogar uma ordem de prisão por motivos piedosos?
Poderia até deixar que ficasse no hospital, discretamente escoltado, fosse o caso de valerem os “sentimentos cristãos” da turma curitibana.
Na verdade, na Lava jato pouco importam a consistência ou inconsistência das acusações e das provas.
Como em todo espetáculo, o enredo constrói sua própria verossimilhança.
O único problema é que ele se torne tão absurdo que se revele como encenação.

SEM PACIÊNCIA

PACIENCIA

Marcelo Auler e a desmoralizante história do auxílio-moradia do juiz “Swat”

swat
Marcelo Auler, cada vez mais  leitura indispensável para quem gosta de reportagem “do tempo em que havia repórter” levanta hoje em seu blog a fantástica história do juiz  Admilson Gomes Pereira, ex-titular da 1ª Vara da Comarca de Xinguara, que está afastado do cargo, com acusação de venda de sentenças, além de julgar casos patrocinados por sua namorada e ter mada de ameaçar  advogados.
Em casa, sem trabalhar, Admílson teve reconhecido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) – por maioria e contra o voto do relator, conselheiro Rogério Nascimento – o direito a receber auxílio moradias e alimentação relativos aos dois anos que está suspenso, sem fazer nada.
É coisa que, dependendo da norma utilizada no cálculo, passa de 100 mil reais, além dos R$ 26.924 mensais que recebe de vencimentos.
Quando li a matéria do Auler – repito, imperdível – fui dar uma “assuntada” sobre a figura. E vi que, orgulhosamente, em 2013, o site do Tribunal de Justiça (?) do Pará anuncia que o enviaram para os EUA, para fazer um curso operacional(!!!) na Swat, sobre ” táticas preventivas e ofensivas com armas de longo e curto alcance”.
O que, certamente, torna um juiz de direito apto a dar sentenças “ponto 50” e despachos “calibre 45”.
Não perca o Auler.

sábado, 27 de agosto de 2016

HOSPÍCIO...

Editorial do Le Monde: ou é golpe ou é, no mínimo, uma farsa

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Traduzido pelo UOL, o editorial de ontem do jornal francês Le Monde:
Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.”
Dilma Rousseff, a primeira presidente mulher do Brasil, está vivendo seus últimos dias no comando do Estado. Praticamente não há mais dúvidas sobre o resultado do julgamento de sua destituição, iniciado na quinta-feira (25) no Senado. A menos que aconteça uma reviravolta, a sucessora do adorado presidente Lula (2003-2010), que foi afastada do cargo em maio, será tirada definitivamente do poder no dia 30 ou 31 de agosto.
Dilma Rousseff cometeu erros políticos, econômicos e estratégicos. Mas sua expulsão, motivada por peripécias contábeis às quais ela recorreu bem como muitos outros presidentes, não ficará para a posteridade como um episódio glorioso da jovem democracia brasileira.
Para descrever o processo em andamento, seus partidários dizem que esse foi um “crime perfeito”. O impeachment, previsto pela Constituição brasileira, tem toda a roupagem da legitimidade. De fato, ninguém veio tirar Dilma Rousseff, reeleita em 2014, usando baionetas. A própria ex-guerrilheira usou de todos os recursos legais para se defender, em vão.
Impopular e desajeitada, Dilma Rousseff acredita estar sendo vítima de um “golpe de Estado” fomentado por seus adversários, pela mídia, e em especial pela rede Globo de televisão, que atende a uma elite econômica preocupada em preservar seus interesses supostamente ameaçados pela sede de igualitarismo de seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT).
Essa guerra de poder aconteceu tendo como pano de fundo uma revolta social. Após os “anos felizes” de prosperidade econômica, de avanços sociais e de recuo da pobreza durante os dois mandatos de Lula, em 2013 veio o tempo das reivindicações da população. O acesso ao consumo, a organização da Copa do Mundo e das Olimpíadas não conseguiam mais satisfazer o “povo”, que queria mais do que “pão e circo”. Ele queria escolas, hospitais e uma polícia confiável.
O escândalo de corrupção em grande escala ligado ao grupo petroleiro Petrobras foi a gota d’água para um país maltratado por uma crise econômica sem precedentes. Profundamente angustiados, parte dos brasileiros fizeram do juiz Sérgio Moro, encarregado da operação “Lava Jato”, seu herói, e da presidente sua inimiga número um.
A ironia quis que a corrupção fizesse milhões de brasileiros saírem para as ruas nos últimos meses, mas que não fosse ela a causa da queda de Dilma Rousseff. Pior: os próprios arquitetos de sua derrocada não são santos.
O homem que deu início ao processo de impeachment, Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, é acusado de corrupção e de lavagem de dinheiro. A presidente do Brasil está sendo julgada por um Senado que tem um terço de seus representantes, segundo o site Congresso em Foco, como alvos de processos criminais. Ela será substituída por seu vice-presidente, Michel Temer, embora este seja considerado inelegível durante oito anos por ter ultrapassado o limite permitido de doações de campanha.
O braço direito de Temer, Romero Jucá, ex-ministro do Planejamento do governo interino, foi desmascarado em maio por uma escuta telefônica feita em março na qual ele defendia explicitamente uma “mudança de governo” para barrar a operação “Lava Jato”.
Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.

ENQUANTO ISSO, NO SENADO FEDERAL...

Lula, exclusivo, ao Tijolaço: “Gilmar pôs o dedo na ferida”


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“Gilmar Mendes pôs o dedo na ferida”. O lead, obrigatório, da conversa que me permitiu, hoje, o ex-presidente Lula, precisa ser este, pelo imbróglio que se formou no enfrentamento entre o ministro do STF e a Procuradoria Geral da República pelo caso do vazamento da delação (ou ex-delação, se depender de Rodrigo Janot) do empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, seria este.
Mas vou me permitir seguir a ordem em que a conversa ocorreu, porque acho que importante, aqui, é o fato de deixar falar, e com o clima com que fala, um personagem da história brasileira – a recente, que ocorre neste instante e a que viveremos nos próximos tempos.
E ela começa assim que Lula sai do saguão do hotel, no Rio, para onde militantes, candidatos e repórteres se aglomeraram para ouvi-lo e desce as escadas para a garagem, em passo acelerado para um homem que completa 71 anos em menos de dois meses. Antes que lhe pergunte qualquer coisa, pergunta-me ele sobre os últimos tempos de Leonel Brizola, que ele, recém-empossado presidente e com as rusgas da política, não pudera acompanhar.
Dá a impressão de alívio ao saber que Brizola só se foi após os 82.
A primeira resposta vem já no carro, como um ensaio do que diria, daí a meia hora, no caminhão de som estacionado diante do Estaleiro Mauá, na Ponta da Areia, em Niterói, num ato em defesa do emprego que resta aos operários da indústria naval, náufragos ainda vivos da crise que afogou mais de 80% dos postos de trabalho. Era, afinal, o dia em que se iniciava o julgamento de Dilma Rousseff no Senado.
– Hoje é o dia da vergonha nacional, o dia em que os golpistas pensam que estão cassando Dilma Rousseff, mas cassam o eleitor, cada um deles que acordou, saiu de casa e votou para Presidente da República.
A energia das palavras, por um instante, dá lugar a um momento de perplexidade com a cassação política de um governante eleito.
-Desde a volta das eleições diretas, jamais imaginei que isso aconteceria. Não posso entender que alguém possa ser cassado por razões de uma possível perda de popularidade. Se fosse assim, todo governante seria cassado em algum momento de seu mandato.
Mas dura pouco a perplexidade com a onda de ódio político que está envolvendo o julgamento de Dilma. Logo chama para si a questão.
– Eu pensei que só tivessem tamanho ódio por mim, não por ela. Mas começaram tentando nos afastar, nos intrigar, desde o início do primeiro mandato. Quando viram que não conseguiriam, resolveram destruí-la e se aproveitaram de sua situação de fragilidade no campo da economia.
Que ele atribui, diretamente, às manobras de Eduardo Cunha.
–  Quando os Estados Unidos tiveram a crise, o presidente da Câmara, lá, ajudava a construir saídas. Aqui, além da mídia, ainda tínhamos um presidente da Câmara que trabalhava diariamente para impedir que Dilma fizesse os ajustes na economia e todo dia vinha com aquelas pautas-bomba.
A tolerância com Cunha, de olho no impedimento de Dilma, foi, para Lula, a razão para a degradação do clima político que atingiu seu ápice com a sessão deprimente da Câmara que autorizou a abertura do processo de impeachment, da qual fala com olhos arregalados, como se – como tantos – ainda não pudesse acreditar que tivesse ocorrido aquele episódio.
A mídia não lhe escapa e conta a opinião de Mário Soares, ex-primeiro-ministro e presidente de Portugal que, trabalhando como entrevistador para um programa de televisão de seu país veio entrevistá-lo há alguns anos, trazendo jornais do mundo inteiro sobre os sucessos do Brasil e lhe perguntou como, nos daqui, retratava-se “um Brasil que acabou”.
– A mídia construiu o discurso para a derrubada de Dilma e levou àquela cena…
Um telefone lhe é passado e interrompe seu raciocínio. São as conversas de que Lula não desiste para mover o que parece inamovível no voto dos senadores que votarão o impeachment. A esperança que escasseia é proporcional ao esforço que ainda faz, desmentindo as intrigas de que deixa Dilma à própria sorte e na conversa com um deles fica claro que ambos agem em sintonia.
Dá para perceber, em poucos minutos de conversa, o papel que ele teria desempenhado na Casa Civil, se Gilmar Mendes não tivesse impedido que ele a ocupasse. A história poderia ser outra, mas é esta que vivemos e me aventuro em tocar no nome do algoz de sua última tentativa de restabelecer a estabilidade política do governo eleito, citando a polêmica que está nos jornais, ressalvando que compreenderia que não entrasse num assunto em que ele, Lula, está sujeito a vinditas judiciais.
Não há nenhuma hesitação ou pedido de off:
– Gilmar Mendes tocou o dedo na ferida. Há dois anos, numa cerimônia em homenagem ao Márcio Thomas Bastos no Ministério da Justiça eu já protestava contra estes métodos. Quando [Sérgio]  Moro definiu [ele se refere às entrevistas do juiz citando a Operação Mãos Limpas, na Itália] que a imprensa ajudava no processo, ele estimulou o julgamento pela imprensa. É preciso que o juiz volte a julgar com os autos, as provas.
Para ele, o episódio pode servir para que se abra um debate sobre isso, agora que o vazamento atinge um ministro do Supremo Tribunal Federal e gera comoção. Lula não se verga ao conveniente e diz que é preciso que alguns juízes e membros do Ministério Público – “alguns, não todos’, ressalva – deixem de se comportar como ungidos por Deus para, a seu modo, definirem quem merece ou não ter direitos.
–  Sou vítima de mentiras há muitos anos. Sei o que é isso. Não posso aceitar que uma pessoa vá para o julgamento na Justiça já condenado pelo julgamento da mídia. E nem que os indivíduos, como alguns fazem, se comportem como se eles próprios fossem as instituições.
Agora é a visão dos barcos que servem à Petrobras fundeados na Baía da Guanabara que interrompe o assunto. Explico que eram muitos mais há algum tempo e, há mais tempo, antes dele, quase nenhum, quando só sucatas ficavam ancoradas no fundo da baía, a espera de desmonte, como ferro-velho. E os navios inconclusos, parados diante do Estaleiro Mauá, onde os operários sobreviventes o esperavam.
E a pergunta inevitável é sobre a perspectiva de retomada daquela indústria, que foi para o Rio, nos anos 60 e 70, como foi para São Paulo a indústria automobilística. Haverá, consumado o impeachment, a enxurrada de capital estrangeiro que, dizem, inundará o país?
–  Só virão comprar o que já existe. Comprar ativos, bens públicos. Acabar com a partilha [do petróleo do pré-sal]. Não se importam com a indústria nacional. Por que é que, em 2009, eu tive aquela briga com o Roger Agnelli, que Deus o tenha? Porque é que a Vale tinha de ir fazer lá fora aqueles navios de 400 mil toneladas [de porte bruto] que muito porto nem tinha calado para receber?
Já estamos na Ponta da Areia, passando no meio de um mar de gente que esperava Lula. Ele fica indócil, quer saltar do carro – “há quatro meses quero vir aqui” – e é desestimulado: “espera, presidente, espera a gente entrar [no portão do estaleiro], que de lá a gente vai para o carro de som”. Ele ainda insiste duas vezes, mas se conforma, sabe que está sendo cuidado.
Mas assim que entramos, sai do carro como um furacão e brilhando mais que sua guayabera branca, ergue os braços e sai pelo portão que o devia proteger daqueles que, de verdade, o protegem e acolhem.
Acabou minha meia hora. Lula agora está em seu meio. Volto a pé, ouvindo os comentários de admiração. Tomo um táxi, já uns 500 metros à frente. O taxista tem um irmão que era caldeireiro num dos estaleiros, irmão que agora está desempregado.
Fiz bem em levar o casaco desbotado que vesti para enfrentar o frio da manhã, quando saí para o encontro com Lula. Pertencia a Brizola e, como ele esqueceu numa produtora de vídeo onde foi fazer uma gravação e eu, assumidamente, não devolvi. Foi uma forma de levar Brizola ao lugar onde, creio eu, ele estaria.

Petróleo de Carcará: o crime é ainda maior do que parecia

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Quando este blog disse que a venda do campo de Carcará, no pré-sal petrolífero da Bacia de Santos era um enorme crime contra o Brasil, do tamanho do rombo provocado pelos assaltantes da Lava Jato, cometeu uma imprecisão ao dizer apenas que ele poderia ser maior, bem maior, do que a vizinha acumulação de Sapinhoá, segunda maior área de produção brasileira.
Carcará, nos cálculos que estimara seu reservatório de 1,3 bilhão de barris de óleo recuperável (passível de ser extraído), ao preço de R$ 8,5 bilhões, metade a vista e metade condicionada à absorção de áreas vizinhas, e se afirmou aqui que ele poderia ter mais do que Sapinhoá, estimado em 2,1 bilhões de barris recuperáveis.
Na CartaCapital desta semana, o geólogo Luciano Seixas Chagas, coordenador do grupo de assuntos de petróleo da Federação Brasileira de Geólogos diz que o total de reservas de Carcará pode chegar a até 6 bilhões de barris recuperáveis.
E que, pelas condições de porosidade da rocha, de ligação entre as acumulações e pela dissolução de gás no óleo (que resulta em elevada pressão e, portanto, alta vazão), em condições que barateiam e aceleram sua capacidade de produção.
Porque exige menos poços de produção e injeção, estes são mais simples, baratos e rápidos de perfurar e, depois, de interligar.
Características assim, no campo de Lula, fizeram a Petrobras baixar a previsão de poços necessários para produção plena de cerca de mil para pouco mais de 150 perfurações.
Como cada poço custa dezenas de milhões de dólares, é fácil imaginar o que isso resulta em relação custo/rendimento.
Infelizmente, este prejuízo imenso é, ainda assim,  muito pequeno diante do que o pa´si vai perder com a criminosa abolição do regime de partilha pretendida – e quase implantada – pelo governo golpista.
Veja, no vídeo abaixo, em linguagem muito clara e simples, o que isso vai representar.

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República de Curitiba peita Janot e Gilmar e vaza mais da “delação que não existe” da OAS

vejapeita
A República de Curitiba tomou o freio nos dentes, como se diz dos cavalos que já não obedecem às rédeas.
A capa da Veja que vai às bancas é um desafio aberto ao Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, e ao Ministro Gilmar Mendes.
Deram uma no cravo – açulando o indiciamento de Lula pela Polícia Federal – e desceram o malho na ferradura: o comando (se é que se pode ainda chamar assim)  da PGR e sobre Gilmar Mendes, que havia se insurgido contra o vazamento de uma insinuação infamante contra o também Ministro do STF Dias Tóffoli.
Desta vez não foi um vazamento, foi uma enxurrada de lama, uma espécie de estouro da barragem da Samarco, atirando lama sobre Lula, Dilma, mas também Aécio e Serra.
Janot disse publicamente que “nunca entraram” na Procuradoria os “anexos” da delação que a revista – ainda não tenho o texto – anuncia aos magotes em sua capa.
Popularmente, “jogaram no ventilador”.
Não “toparam” a amenizada de Gilmar, desde ontem.
E, de novo, a Veja é o veículo que mais se presta a publicar, com escândalo, o que lhes serve politicamente.
Quando se tiver acesso ao conteúdo, a partir do que ocorreu na edição anterior, é provável que se veja que muito – ou tudo, como na semana passada – sejam alegações sem prova.
Suposição que o “jornalismo” da revista há muito justifica.
Vai ficando completamente evidente que a Força Tarefa  joga no caos, quem sabe esperando que dos escombros da República surja “A lenda” para reinar sobre as ruínas.
Deixo à criativa imaginação do leitor imaginar quem seja.

O ódio transformou o Senado em Câmara e Renan em Delcídio. Assista

renanconfessa
Como no dia em que Joaquim Barbosa disse a Gilmar Mendes que ele não estava falando “com seus capangas lá do Mato Grosso” no plenário do Supremo Tribunal Federal, a sessão do  Senado Federal tem de ser suspensa.
Só pode continuar por muita falta de vergonha, depois do episódio provocado, no microfone do plenário, pelo senador Renan Calheiros, dizendo que Gleisi Hoffman não poderia falar que a Casa “não tinha moral” para julgar a presidenta Dilma Rousseff, porque ele, ” o presidente do Senado Federal conseguiu no Supremo Tribunal Federal desfazer o seu indiciamento e do seu esposo, que havia sido feito pela Polícia Federal.”
Gleisi nega, mas ainda que seja verdade, é a confissão pública que Renan pressionou indevidamente o Supremo e que este aceitou a pressão e interferiu indevidamente num inquérito.
Confissão feita diante do presidente do STF, que presidia a sessão.
O que fez Renan só se diferencia daquilo que levou Delcídio do Amaral à prisão pro ser mais explícito e feito em público e diante de Lewandowski.
Gleisi dizer que o Senado não tem moral para julgar Dilma é uma opinião. Pode-se discordar dela, embora o fato de diversos senadores – o próprio Renan, Romero Jucá, Aécio Neves e Aloysio Nunes, para ficar com os “graúdos” estão sendo investigados pelo recebimento de vantagens, delatados – a maioria – mais de uma vez.
Já o que fez Renan é a confissão de um fato e um fato criminoso.
Como todos são mesmo imorais, vão continuar, fingindo que Renan não disse nada e prometendo todos serem bons meninos e meninas, para que o julgamento ande rápido e não atrapalhe a viagem de Michel Temer ao exterior.
Se o Senado não tinha moral para julgar a Presidenta da República, certamente agora não tem, quando dentro dele, diante das câmaras de TV e do presidente do STF se confessa um crime e nada acontece, a não ser servirem um copo d’água com açúcar a Renan Calheiros.

O JUIZ NADA IMPARCIAL CHAMADO MORO...