sábado, 27 de agosto de 2016

Temer prepara o “Pro-Oi”, com R$ 5 bi do BNDES

oi
Quase na surdina, o Governo Temer acertou ontem um programa de endereço certo.
R$ 5 bilhões em créditos do BNDES para financiar a compra de empresas em recuperação judicial.
Leia-se a operadora Oi, para começar.
Amanhã, talvez, alguma empreiteira atingida pela Lava Jato.
Vende, reestrutura e os espertos levam o dinheiro.
Que se dane que o BNDES seja um banco de fomento e este negócio não fomente nada, exceto o lucro de empresários semifalidos.
O tsunami de dinheiro externo que viria, agora que Temer, o salvador da pátria, está a dias de se confirmar no golpe, não veio.
Na Folha, o economista José Roberto Afonso, da FGV, diz que “pelo visto, o mercado não deu conta (de financiar a compra das semifalidas). E esperava-se que estrangeiros entrassem e comprassem as empresas brasileiras em má situação financeira, mas também não devem estar dando conta.”
R$ 5 bilhões, num país carente de recursos para investimentos, para negócios que não vão gerar um emprego a mais, uma obra a mais, uma empresa a mais.
Não é sequer comprar um pedaço delas, recuperar e vender, com lucro, como os EUA fizeram com a GM, na crise de 2008/2009.
É financiar o negócio privado com dinheiro do Tesouro, sem receber nada em troca por isso, já que os juros são subsidiados.

Laura Carvalho e a “retomada”.É apenas cavar mais lentamente o buraco da economia

buraco
Laura Carvalho, com seus artigos na Folha, tem sido uma das economistas mais lúcidas e claras ao analisar o que acontece no cenário da economia brasileira.
Em sua coluna de hoje ela explica com muito mais clareza do que eu tenho conseguido fazer que não há nenhuma recuperação da economia em curso, nem mesmo no horizonte visível, sequer.
A economia brasileira encolheu 3,8% em 2015, e as previsões são de que encolha esse ano mais 3,3%. Interpretar esta leve queda no ritmo da retração como um sinal claro de retomada da economia pode ser produto de “wishful thinking” ou má-fé.
O que acontece, diz ela, é que o Brasil está “cavando mais devagar” o buraco da crise, que depressa se cavou no período genial do “corta tudo que aí tem jeito” de Joaquim Onde Anda Você Levy.
À contração no total de despesas efetivas primárias federais —descontando as chamadas despedaladas— da ordem de 2,5% reais e de mais de 30% nos investimentos públicos, somaram-se uma aceleração inflacionária provocada pelo reajuste brusco nos preços administrados e sucessivas elevações nas taxas de juros.
Isso sem contar os efeitos deletérios dos discursos proferidos não apenas pela grande mídia, mas também pelo próprio governo, que, ao vender-se como uma grande família em crise, só contribuiu para abalar ainda mais a confiança de famílias brasileiras realmente vulneráveis.
Como se não bastassem os malefícios da própria política econômica, o país ainda teve de absorver no ano passado —assim como a maior parte dos países emergentes exportadores de commodities— os impactos negativos no curto prazo de uma desvalorização cambial.
Impactos esses que foram agravados pelo endividamento em dólar de boa parte das empresas brasileiras nos anos de expansão da economia. E para completar, ainda tivemos de lidar com a Lava Jato, a seca e a má vontade do Congresso.
Laura deixa claro, portanto, que o receituário anticrise do neoliberalismo, que a pressão midiática levou o governo a aceitar, aplicado nas doses cavalares que foi, só agravou a crise ao ponto em que ela chegou e do qual, agora, ainda passa, ainda que mais lentamente, ao menos por enquanto.
Cavar o poço mais devagar que em 2015 não parece, portanto, ser uma tarefa muito difícil. Sem a pressão dos analistas e com a súbita tolerância dos parlamentares, uma previsão de deficit maior garantirá que haja crescimento real das despesas primárias efetivas superior a 2%.
Onde, portanto, a retomada,exceto nas páginas de jornal – e já não com tanta frequência e sem a quase unanimidade?
Infelizmente, cavar menos o poço não significa que sairemos dele em breve. Em meio aos seus tantos sinais contraditórios –expansão fiscal fisiológica no curto prazo e promessa de contração fiscal perpétua a partir de 2019, por exemplo–, os primeiros cem dias de governo Temer foram inequívocos em ao menos um aspecto: a total ausência de agenda para a recuperação dos níveis pré-crise de emprego, renda e desigualdade.
A que temos – ou melhor, a que se promete no pós impeachment – aponta em sentido exatamente inverso.

Toledo e as pesquisas municipais. Só dá “Fora Temer”, de Norte a Sul

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“Pulei” a oportunidade de comentar as pesquisas de intenção de voto para prefeito das capitais, divulgadas anteontem e ontem, por terem pouca relevância do ponto de vista do quadro nacional. São eleições despolitizadas e desmobilizadas como poucas vezes vi em minha vida e, ainda por cima, ao menos no Rio e em São Paulo por candidatos de pouca densidade política, Celso Russomano e Marcelo Crivella, exceto pelo fato de ambos terem mostrado uma enorme capacidade de se desfazerem ao longo da campanha.
O mais interessante nelas, feito ontem pelo colega Fernando Molica no Rio de Janeiro, é analisado nacionalmente hoje pelo ótimo José Roberto de Toledo: qual é o quadro da avaliação de Michel Temer nas principais cidades do país.
E o quadro é tão devastador que Toledo “mata a charada” da ausência do presidente interino dos palanques municipais.  Mais fácil que ser excesso de relo com sua base, é ser falta  de convite, mesmo porque espanta votos.

Temer longe da urna

José Roberto de Toledo, no Estadão
Às vésperas de perder o “interino” de seu título, e em tempo de estrear na política internacional em viagem à China, Michel Temer deve manter-se longe da política local – dos palanques, ao menos. O presidente em exercício anunciou que não fará campanha nas eleições municipais. Foi uma decisão esperta. A julgar pelos resultados das pesquisas Ibope em 22 grandes e médias cidades divulgados esta semana, seria, sim, por falta de convite.
Temer tem saldo negativo de popularidade em 22 das 22 cidades pesquisadas. Em todos elas, as taxas de ótimo e bom atribuídas ao seu governo são menores do que as taxas de ruim e péssimo. O tamanho do buraco varia de município para município, de região para região, mas, sem exceção, mais eleitores desaprovam a gestão Temer do que a elogiam. Logo, sua presença em palanques teria mais chance de atrapalhar do que ajudar um candidato.
É improvável que essa impopularidade onipresente mude em tempo de transformar o futuro ex-interino em um cabo eleitoral para candidatos a prefeito. Seria necessária uma reversão relâmpago da recessão e uma melhoria instantânea das expectativas econômicas para que Temer deixasse de ser um peso na urna.
Mesmo nas metrópoles onde seu partido, o PMDB, tem candidato com chances eleitorais palpáveis, Temer deve manter-se longe de comícios e propagandas na TV ou no rádio. Não apenas porque eventualmente assim prefira, mas porque os marqueteiros teriam um enfarte se precisassem inserilo ao lado do cliente.
Tome-se o caso de São Paulo. Marta, que não quer mais ser chamada de Suplicy, é a candidata peemedebista. Largou em segundo lugar, com 17% das intenções de voto estimuladas no Ibope. Tem boas chances de ir ao 2.º turno. Mas o endosso explícito de Temer não ajudaria em nada essa missão: 41% dos paulistanos acham o governo do interino ruim ou péssimo.
Na verdade, Temer tem uma taxa de ótimo e bom entre os paulistanos tão baixa quanto a do impopular prefeito petista Fernando Haddad: 13%. O saldo de popularidade presidencial em São Paulo é de 28 pontos negativos. E está longe de ser a cidade onde o presidente interino é mais mal avaliado.
No Rio de Janeiro, onde Eduardo Paes (PMDB) pena para eleger o candidato Pedro Paulo (tem 6% de intenção de voto e está em quarto lugar), Temer tampouco ajudaria. Sua popularidade está 30 pontos no vermelho. Ou seja, 25 pontos pior do que a de Paes.
Do Nordeste, então, Temer deve manter mais distância ainda. Em Salvador, ACM Neto (DEM) nada em popularidade. Tem 71% de ótimo e bom. Se a eleição fosse hoje, ele se reelegeria já no 1.º turno com 81% dos votos válidos. Para que arriscar um apoio explícito de Temer, que tem 53% de ruim e péssimo na cidade?
Em Feira de Santana (BA) a situação é igual: o candidato do DEM se reelegeria no 1.º turno e Temer amarga 50% de ruim e péssimo contra 10% de ótimo e bom. A maré de impopularidade presidencial também vai alta em outras cidades nordestinas.
No Recife, o presidente interino tem 48% de desaprovação. São 49% de ruim e péssimo em Teresina, 45% em Aracaju, 44% em Natal, 49% em Fortaleza e 46% em Maceió. Na capital de Alagoas, o governador, filho de Renan Calheiros, é mais popular do que Temer: 32% de ótimo/bom e 25% de ruim/péssimo: saldo de 7.
O fenômeno se repete em outras regiões. Em Belo Horizonte, Temer tem 47% de ruim e péssimo contra apenas 13% de ótimo e bom. Em Porto Alegre, onde o PMDB tem candidato a prefeito, Temer só não é mais impopular do que o governador peemedebista José Ivo Sartori. Tem saldo negativo de 32% contra 43% do governador. O cenário se repete no interior paulista, em cidades como Campinas, Ribeirão Preto, São Carlos, Araraquara e Sorocaba. Lá, Temer é mais mal avaliado do que Geraldo Alckmin (PSDB).
Para sorte do presidente, não há eleição municipal em Brasília.

Maia admite que não haverá quorum para cassar Cunha. Que fique para as calendas….

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O presidente temerista da Câmara, Rodrigo Maia, admitiu o óbvio> que não haverá quorum para  votar a cassação do mandato de Eduardo Cunha na sessão de 12 setembro.
Como, aliás, todo mundo sabia.
Não haverá na segunda e, como o pimpão presidente admite, que “se ( o quorum) estiver baixo na segunda, faz na terça, e estiver baixo na terça, vota na quarta. Se também estiver baixo, vota na outra semana, vota outro dia”,
Como, não havendo quorum para cassar Cunha, não haverá quorum para votar qualquer coisa.
O pacote de “maldades” vai ser um anúncio retórico.
O “boom” com que se contava para o pós-impeachment pode ser um anticlímax.
Cunha?
Parece que  se esqueceram de quem é.
O autor do espetáculo de cinismo que se inicia nesta quinta-feira.

sábado, 13 de agosto de 2016

Infâmia

LEVA
Num ato que talvez tenha vindo do que lhe restou de digno dentro de si, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, aceitou uma única questão de ordem apresentada pelos adversários do golpe.
Ele acolheu o protesto da senadora Vanessa Grazziotin para que não se retirassem das notas taquigráficas da sessão de ontem as palavras infâmia e fraude.
Porque, no exame que os tempos farão sobre o que se passou ontem, a palavra infâmia será indispensável.
A política – e nossa habilidade ou inabilidade ao fazê-la – dissolve-se no tempo. O significado de nossos atos, não.
Aceitem-se todas as “acusações” políticas que se faz a Dilma – ingenuidade, vacilações, inapetência pelo jogo parlamentar –  mas pondere-se que, no seu segundo mandato, o comando da Câmara foi assumido pelo mais poderoso gangster da política brasileira nas últimas décadas, Eduardo Cunha.
Também se leve em conta que só tenha se dado conta da degola para a qual caminhava quando o  clima de perseguição instaurado no país já não lhe permitia uma mudança efetiva, embora desejada, como ficou claro com a demorada e bloqueada indicação de Lula para a Casa Civil.
Nas artes sombrias da política, isso explica o que se passou ontem.
Fora delas, nada explica o restante: um processo aberto por um ladravaz como Cunha, a admissão da acusação numa sessão que mais parecia um circo de loucos, a designação do pupilo do candidato derrotado, Aécio Neves, como relator do processo no Senado e um julgamento onde não vieram ao caso os fatos, apenas as opiniões.
Por último, ver o presidente do Supremo Tribunal Federal reduzido à condição de “mestre-de-cerimônia” do terrível arremedo de julgamento, se é que este nome pode merecer, em lugar do linchamento que foi.
É só o que explica que Lewandowski tenha, num último espasmo  de sua dignidade e consciência jurídica tenha preservado o registro da palavra infâmia.
Afinal, se ele não poderia ser julgador de tantos que a praticavam, ao menos restava-lhe o direito de julgar aquilo do qual ele próprio participava.

Nojo

traidores
Quando a gente vai ficando velho e a política já passou diante dos nossos olhos com todas as suas ilusões e fantasias, a gente não se ilude, ou pelo menos não se ilude tanto, porque não perdemos o desejo de que as coisas se deem corretamente e resultem no melhor para o Brasil.
Não é hora de analisar os erros e insuficiências do PT, de Lula e de Dilma.
Nenhum terá sido tão grave quanto o de aceitar a lógica do adversário e crer que a classe dominante brasileira poderia aceitar um modelo de desenvolvimento inclusivo por convencimento e não pela pressão das massas trabalhadores, deixada à mercê do controle remoto e do discurso moralista.
Ontem, mesmo vendo de rabo do olho aquela monstruosa sessão de “julgamento” acabei me deixando levar por um sentimento que dispensa muitas explicações, porque é visceral e nosso estômago tem supremacia sobre o nosso cérebro que racionaliza e o coração que tenta perdoar.
Difícil convencer nossas entranhas a assistirem quietas que tantos que se serviram de ministérios, de poder e prestígio nos governos Dilma e Lula, possam apunhalá-los e à democracia pelos pratos de lentilhas que Temer lhes dará.
Depois destes episódios é preciso serenar. Serenar não é ceder, é não nos devorarmos diante da derrota que está clara e desenhada,  embora o combate deva continuar.
Preciso, portanto, pedir aos amigos e amigas que tenham um pouco de paciência antes que eu volte a falar de algo que não pode despertar senão repugnância: ver o parlamento transformado numa sociedade de celerados que assalta, sob a cumplicidade das instituições, a soberania do voto popular.
Estamos entrando numa ditadura e não se enfrenta ditaduras com força cega.
A gente não é de ferro e tem hora em que o nojo, em todas as acepções que a palavra tem, não é bom conselheiro do olhar.
Daqui a pouco retomo o blog, assim que o corpo e a cabeça permitirem.

Pré-sal bate recorde e já é metade da produção da Petrobras

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A Petrobras extraiu 2,70 milhões barris de óleo equivalente (petróleo + gás) por dia no Brasil, na média do mês de julho.
Destes, 1,32 milhão vieram, a cada dia, do pré-sal. Seis por cento mais que em junho.
Metade – ou, se quiserem os puristas exatidão, 48,89%  – de toda a produção da empresa que, por sua vez, responde por 94% do petróleo extraído em nosso país e em suas bacias marítimas.
Será ainda mais nos próximos meses e seria muito mais se a Petrobras não tivesse atrasado duas plataformas, a P-74 – a da imagem acima –  e a PP-77, que só agora partiram do Rio para o Rio Grande do Sul onde vão receber as estruturas de convés. As duas só entram em operação em 2018, provavelmente, quando pelo menos a P-74 deveria começar a extrair óleo do megacampo de Beija-Flor (antes chamado Franco).
As duas plataformas têm capacidade para operar 300 mil barris diários de petróleo e deveriam estar produzindo este ano.
Os campos em desenvolvimento são suficientes para que o Brasil dobre sua produção de petróleo, sem a necessidade de vender uma gota de suas reservas, como já fez, mês passado, entregando o campo de Carcará.
Licitar áreas do pré-sal, neste momento de petróleo com preços baixos e sem o controle operacional da Petrobras, como se preparam para eliminar com o projeto de José Serra , é, sem meias palavras, entregar nossas reservas a quem sequer vai explorá-las mais rápido do que a Petrobras faria.
Vai, sim, é deixa-las como áreas estratégicas, das quais a cegueira entreguista abre mão, quem sabe em troca de quê…

Os pobres porcos do mato

cateto
O governo Temer é uma espécie de volta no tempo que não sei quanto tempo poderá conviver com o Brasil que, apesar de tudo o que lhe fazem, não pode ser forçado a viver no passado, se houver um mínimo de liberdade.
Estamos diante de um regime que precisa recolher, para compor-se, o que há de mais medíocre, picareta e imbecil para compor uma burocracia estatal.
Hoje, tivemos dois exemplos da inteligência ao rés do chão dos novos donos da burocracia.
O ministro (dos planos) da Saúde disse que os homens vão menos ao médico porque “trabalham mais” e são os “provedores do lar”.
O imbecil não sabe que há dados bastante detalhados sobre o que faz haver esta prevalência nas consultas feminina. Uma pesquisa do IBGE em todo o país, em 2013 – que mostra que esta diferença ( 78% das mulheres haviam se consultado nos últimos 12 meses, contra 64% dos homens) se deve em boa parte à persistência, na última década, do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher.
O outro foi o superintendente do Ibama, nomeado por Sarney Filho, que se vangloria de um churrasco de porco do mato, animal silvestre de caça proibida. Um advogado, provinciano, que debocha do órgão que o colocaram para dirigir, dizendo que que saboreia um pernil de caititu é só um retrato da mixórdia que ascende aos cargos de governo com essa turma do Brasil do século 19.
Felizmente, podemos nos tranquilizar. Estamos numa temporada de proliferação de porcos do mato.
Mas eles  não chegam a ser tão perigosos quanto os javalis do passado.

Cunha e fábula do burro falante

burrofalante
Diz a velha história que o homem chegou ao reino dizendo ser tão bom professor que até a um burro ensinava a falar. O rei mandou indagar-lhe se era verdade e se o faria por ordem real.
O homem confirmou e impôs condições: estábulo para o burro do Palácio Real, aposentos suntuosos e concubinas para si e uma bolsa-burrode mil patacas de ouro a cada mês. E prazo, porque  o burro, como sabia Sua Alteza, era burro e, sendo assim, era preciso um tempo longo, dez anos, para que o bichinho passasse a fluir no idioma reinol.
O rei concordou com tudo, mas disse que, se ao final dos dez anos, o quadrúpede não falasse, o pescoço de seu professor seria cortado nas escadarias do Palácio Real.
Trato feito, o “professor” da fábula – ao contrário dos da vida real – passou a desfrutar do bom e do melhor, embora não descuidasse de, todos os dias, falar pausada e silabadamente algumas palavras ao burro.
Até que um diz um rapazote, cavalariço que sempre assistia a cena, resolveu interpelar o “professor”, dizendo que todos sabiam que o burro não falaria.
-Meu jovem, disse o charlatão, não existe o possível e nem  o impossível. Só que e existe é o tempo, que mostra se as coisas se realizam ou não. Neste caso, o prazo me auxilia.
-Mas daqui a dez anos o senhor será degolado nas escadarias do palácio!
– Rapaz, daqui a dez anos são imensas as possibilidade de que o rei, eu ou o burro, um dos três esteja morto e nada do que se disse terá valor.
A cassação de Cunha – agora a Folha o descobre – ficará para “novembro”.
Ou, na prática, para as calendas, como há dois dias se observou aqui ao ver Rodrigo Maia acertar-se com Temer para “marcar” para uma esvaziada segunda-feira de setembro a votação na qual supostamente Cunha seria cassado.
Setembro não tem quorum, menos ainda em outubro, mês das eleições, em novembro a pauta estará cheia e dezembro é Natal e o espírito natalino proíbe estes espetáculos.
Caminhamos para ficar sem a Presidenta honesta e eleita e com o ladravaz que providenciou a sua deposição.
Por medo, muito medo, que o burro nada burro desta história, afinal, pudesse falar.

Temer sobe no salto e sinaliza que vai atropelar logo os direitos sociais

salto
A leitura da entrevista do presidente em exercício, Michel Temer, no Valor (acesso apenas a assinantes) é enfadonha como assistir ao desempenho de um canastrão: tudo é superficial, vaidoso e vazio de convicções e projetos de longo prazo.
A valorização cambial da moeda brasileira, por exemplo, que é uma grave ameaça ao pouco que tem funcionado a indústria brasileira – os ganhos da balança comercial apontam para uma desaceleração do superavit comercial significativa em agosto, mostra como a cabeça de Temer está mergulhada do egocentrismo:
Ontem veio um grupo aqui [de 15 grandes empresários e banqueiros] e um dos temas que conversamos era sobre isso [a supervalorização do real] Mas eles vieram aqui para dar apoio [a ele, Temer].
Temer acha que a legitimidade internacional que lhe falta – é só olhar seu abandono durante as olimpíadas – vai resolver-se magicamente com a votação do impeachment.
Vocês sabem que se o Senado vier a me confirmar, vou começar a fazer viagens pelo exterior. China, Nova York, Índia, países árabes… fiz viagens quando era vice e via que todo mundo queria aplicar no Brasil. Quando o governo estiver instalado e sem embargo de dizer que exerço a Presidência…
O descompromisso com responsabilidade fiscal fica patente nessa pergunta do Valor e  em sua resposta:
Valor: Há uma história de que o governo vai enviar um projeto de lei aumentando o déficit primário deste ano em R$ 25 bilhões. É verdade?
Temer: Nem sei se será necessário, mas isso jamais chegou aos meus ouvidos.
Como “não sabe se será necessário”?
No meio de uma confusão destas – quando se espalham previsões de queda na arrecadação e insuficiência das já gigantescas metas de déficit deste ano e de 2017, o presidente da República diz que “nem sabe” se é necessário um “rombo suplementar”?
Mas é na maldade da aposentadoria que Temer se supera em cinismo.
Diz que não vai esperar a eleição municipal para anunciar as mudanças para “não cometer estelionato eleitoral”. Como se não fosse estelionato não apenas deixar para anuncia-la após sua confirmação no cargo e, mais além, de enfiar goela abaixo do povo brasileiro uma reforma nos critérios de aposentadoria que nunca foi exposta à população quando se lhe pedia o voto.
E que reforma! Tudo é genérico, impreciso. Os 65 e  62 anos como idade mínima para homens e mulheres terem direito a se aposentar  – mesmo que completem antes o tempo de contribuição – são defendidos com o critério de “na minha cabeça”…
Na minha cabeça, tem que haver uma pequena diferença, se o homem se aposenta com 65 a mulher pode se aposentar com 62.
Na sua cabeça, claro, a idade para ele se aposentar foi de 55 anos. Estas idades foram calculadas com base em que? Quantas pessoas atinge, com que gravidade.
Na próxima semana espero, já com a saúde recuperada, postar uma série de informações sobre quem custa quanto à Previdência, e quanto os trabalhadores darão a mais de suas vidas, sobretudo os mais pobres, que começam a trabalhar mais cedo,
E ajudar, com exemplos e cálculos práticos e pessoais, cada leitora a ver o tamanho da monstruosidade que isso representará.

A Operação “Cozinhem o Galo” com Eduardo Cunha

trampolim
A esta altura, nem a mídia consegue disfarçar as evidências de que está em curso um plano para protelar até o indefinido a cassação do mandato de Eduardo Cunha.
A Folha, candidamente, registra hoje que…
O discurso do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de que haverá quorum alto na votação do processo de cassação do mandato de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) no dia 12 de setembro, uma segunda-feira, contraria a praxe na Casa.
Três dias para perceber o que todo mundo sabe, mas tudo bem…
A questão, agora, é o dos vários interesses que se acumpliciam nesta sobrevida: os do grupo de Cunha, que pretendem que o leve à absolvição e os de Temer e o dos tucanos, que preferem cozinhar o galo a fazer uma “pizza”.
No centro disso estão as emendas constitucionais que Temer e os tucanos precisam emplacar para tirar direito dos aposentados, acabar com as vinculações orçamentárias para a Educação e a Saúde.
Sem os votos que Cunha ainda tem, nenhuma chance de alcançar os 308 votos necessários para sua aprovação.
Mas Cunha, é claro, tem bons motivos para não entregar logo estes votos, que são seus trunfos e, portanto, têm hora certa de descarte.
Temer terá, portanto, de força-lo a jogar na mesa seu apoio ao arrocho e é por isso, com a bênção do Ministro da Polícia Federal, vai funcionar o Judiciário, provavelmente com novas pressões sobre a mulher de Cunha que, qualquer pessoa percebe, é beneficiária do dinheiro da propina, mas não cúmplice – até por falta de poder para isso – da execução da rapinagem.
Caminha por aí o jogo imundo da “moralização” da política brasileira.
Um jogo de ganhgsterismo, que arrastou, com grande prazer, a Justiça e a imprensa para a sua lógica e para seus interesses comuns.